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HTLV: Espectro das manifestações clínicas

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HTLV: Espectro das manifestações clínicas

O vírus linfotrópico de células T humanas, ou simplesmente HTLV (do inglês human T-lymphotrophic virus), é um agente infeccioso viral da família dos retrovírus associado ao desenvolvimento da leucemia/linfoma de células T do adulto e da mielopatia associada ao HTLV-1.1 Há 4 tipos de HTLV: o HTLV-1, que foi o primeiro a ser identificado e descrito, isolado na década de 80 a partir de linfócitos de um paciente com linfoma cutâneo de células T; na sequência, o HTLV-2 foi identificado em paciente com leucemia de células pilosas, todavia sem relação causal com esta; já o HTLV-3 e HTLV-4 foram descritos em populações isoladas específicas e não se associam a manifestações clínicas.1

Dados epidemiológicos sobre a infecção pelo HTLV são escassos, mas estima-se que haja cerca de 10 a 20 milhões de infectados pelo HTLV-1 no mundo, enquanto o HTLV-2 é responsável por cerca de 50.000 casos.1 O Brasil é o país que refere o maior número de infectados pelo vírus, com estimativa de 800.000 pessoas infectadas pelo HTLV-1.1,2

No indivíduo infectado, o vírus pode ser encontrado em linfócitos de diversos fluidos, como sangue, sêmen, secreção vaginal e leite materno, sendo transmitido, portanto, por 3 possíveis vias: parenteral (transfusão sanguínea e de hemocomponentes, transplante de órgãos, uso de drogas injetáveis), vertical (via placentária ou, mais comumente, através do aleitamento materno) e sexual.2

A importância clínica do HTLV deve-se à existência de duas entidades clínicas conhecidas por serem unicamente causadas pelo HTLV-1: a mielopatia associada ao HTLV-1 (HAM), também conhecida como paraparesia espástica tropical (PSP), e a leucemia/linfoma de células T do adulto (ATLL).3

A HAM caracteriza-se como uma síndrome neurológica, geralmente insidiosa, com acometimento predominante de medula espinal dorsal, que manifesta-se com paraparesia espástica, hipertonia dos membros inferiores e pouca ou nenhuma alteração sensitiva.1 Disfunção vesical, constipação, dores neuropáticas em membros inferiores e disfunção erétil são outros possíveis achados.2 

Estima-se que a HAM ocorre em cerca de 4% dos infectados pelo HTLV-1.2 Ainda há pouca compreensão da fisiopatologia da dessa doença, sendo que a manifestação e progressão do quadro parecem estar ligados a maiores níveis de carga proviral no líquor.4 Apesar de infectar diversos tipos celulares, são os linfócitos T CD4+ os principais alvos do HTLV, e a progressão para a doença parece estar relacionada à replicação do vírus nos linfócitos T CD4+ e T CD8+, com consequente desbalanço entre citocinas pró e anti-inflamatórias.4 Pacientes com HAM apresentam elevados níveis de TNF-α e IFN-γ no líquido cerebroespinal (resposta Th1), enquanto a resposta Th2 (IL-4 e IL-10) parece estar reduzida, resultando em desbalanço imuno-inflamatório, podendo indicar papel fundamental dessas citocinas no advento dessa síndrome neurológica.4  

Já a ATLL, por sua vez, corresponde a uma doença linfoproliferativa de células T maduras, geralmente agressiva, que manifesta-se com leucocitose, presença de linfócitos anormais (“flower cells”), linfadenopatias, lesões cutâneas e disfunção de múltiplos órgãos por invasão de células neoplásicas.1,2 

São 4 as formas clínicas da ATLL: aguda (correspondendo a 42-47% dos casos, a mais comum e agressiva, geralmente cursando com lesões cutâneas, ósseas, pulmonares e de sistema nervoso central), linfomatosa (19% dos casos, evolução também rápida, com linfadenopatia, hepatoesplenomegalia e lesões cutâneas), crônica (19%, curso lento e com linfocitose absoluta por linfócitos T) e smoldering (6%, curso lento, lesões de pele e pulmão, leucometria normal).2 Isso resulta da capacidade do vírus em manter latência de longo prazo nos linfócitos T, com baixas taxas de replicação, podendo causar alterações genéticas e induzir proliferação celular, resultando na neoplasia.4 Estima-se um risco de até 3 a 5% de desenvolvimento de ATLL pelos infectados pelo HTLV-1, sendo esse risco maior naqueles com idade mais avançada e maior carga proviral.1

Além da HAM e da ATLL, evidências têm sugerido que diversas outras manifestações clínicas podem estar associadas ao vírus, especialmente desordens de natureza inflamatória, muitas delas em pacientes até então classificados com infecção assintomática.5 Dentre os sinais e sintomas relatados, estão a uveíte, xeroftalmia, fotofobia, artralgia, doença periodontal, desordens neurogênicas vesicais e déficits neurológicos não relacionados à HAM, como parestesias de extremidades e dificuldades de marcha.5 

Revisão sistemática de desfechos clínicos adversos relacionados ao HTLV-1 em levantamentos epidemiológicos apontou para maiores índices de ocorrência de dermatite seborreica, eczema, bronquite e bronquiectasias, linfomas não-ATLL, síndrome de Sjögren, entre outras, em pacientes soropositivos quando comparados aos negativos.3  O HTLV foi associado também a um aumento na mortalidade geral, no entanto não explicada pelas condições clínicas associadas ao vírus.3 Ademais, apesar dos fortes indicativos de indução de estado pró-inflamatório pelo vírus, ainda não há dados que apontem para possíveis relações entre o HTLV e desordens cardiovasculares, cerebrovasculares e metabólicas.3,4

Embora o desenvolvimento de complicações clínicas relacionadas ao HTLV pareça ocorrer apenas numa minoria dos infectados, evidências mais recentes servem de alerta para possíveis novas síndromes e complicações clínicas, além das já conhecidas ATLL e HAM, que podem estar associadas ao vírus.3  Ainda não é possível estabelecer, de fato, uma relação causal entre o vírus linfotrópico de células T humanas e esses diferentes sinais e sintomas apontados em alguns estudos, porém cabe a busca por tais achados em pacientes com diagnóstico recente da infecção a fim de averiguar essas novas possibilidades.3,5

Escritor Flávio P. Brandt
Revisor Dr. Alexandre Naime Barbosa

Referências:

  1. Ministério da Saúde (MS). Guia de manejo clínico da infecção pelo HTLV. Brasília: MS; 2021.
  2. Rosadas C, et al. Protocolo brasileiro para infecções sexualmente transmissíveis 2020: infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV). Epidemiol Serv Saude. 2021;30(1).
  3. Schierhout G, et al. Association between HTLV-1 infection and adverse health outcomes: a systematic review and meta-analysis of epidemiological studies. Lancet Infect Dis. 2020;20(1):133-143.
  4. Brites C, et al. Pathogenesis of HTLV-1 infection and progression biomarkers: an overview. Braz J Infect Dis. 2021;25(00):101594.
  5. Poetker SKW, et al. Clinical manifestations in individuals with recente diagnosis of HTLV type I infection. Journal of clinical virology. 2011;51(1):54-58.
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