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O complexo quebra-cabeças da origem do SARS-CoV-2

infectologia

No ano de 2019, conhecemos o SARS-CoV-2, um sarbecovírus que trouxe consigo uma pandemia devastadora, a qual seguimos enfrentando em 2022. Entender como ocorreu o surgimento desse vírus, e os fatores envolvidos para isso, é uma tarefa desafiadora. Para todos que leram “O Contágio”, do escritor, jornalista e divulgador científico norte-americano David Quammen, somos introduzidos a essas perguntas em diversos contextos e experiências passadas com agentes infecciosos responsáveis por surtos, epidemias e pandemias (aqui, você pode encontrar algumas impressões sobre o livro). Quais peças temos disponíveis, então, para tentar remontar a história sobre o SARS-CoV-2?

Alguns especialistas buscaram espécies que poderiam ser reservatórios biológicos para agentes infecciosos, em especial coronavírus, como os morcegos. No estudo de Zhou e colaboradores, os autores identificaram quatro genomas relacionados ao SARS-CoV-2 em morcegos do gênero Rhinolophus. Ainda, três outros coronavírus relacionados a SARS-CoV foram coletados em amostras na província de Yunnan, na China, entre 2019 e 2020. Pela grande proximidade desses genomas ao genoma do SARS-CoV-2, muitas das suspeitas da origem desse vírus apontaram para os morcegos. Sabemos que esse “pulo/evento zoonótico” (ou, do inglês, spillover) de uma espécie animal para a espécie humana precisa reunir elementos importantes, como a proximidade/contato físico dessas espécies com indivíduos, para acontecer. 

Em um estudo de 2021, disponibilizado no formato de pré-impressão (preprint) na plataforma medRxiv, os autores trazem essa perspectiva de que “cada evento zoonótico de um novo vírus representa uma oportunidade para adaptação evolutiva e disseminação adicional”. Mas e se esses eventos não aconteceram uma, mas várias vezes? Os autores analisaram dados de soroprevalência e contatos entre humanos-morcegos para tentar estabelecer um risco desses eventos zoonóticos “escondidos” estarem acontecendo, acusando uma estimativa de que “cerca de 400.000 pessoas são infectadas com coronavírus relacionados a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) todo o ano no sul e sudeste da Ásia”. É possível considerar, portanto, que esses eventos zoonóticos estão acontecendo centenas de vezes, e que vírus próximos ao SARS-CoV-2 poderiam estar circulando há um tempo no ambiente.

Dois meses depois da divulgação do estudo acima, um trabalho publicado na Nature Communications descreveu dois novos coronavírus muito próximos ao SARS-CoV-2 fora da província de Yunnan, na China, e sim em amostras do Camboja datadas de 2010. Esses dois coronavírus encontrados em morcegos Rhinolophus shameli apresentavam “a maioria das regiões genômicas intimamente relacionada ao SARS-CoV-2, com exceção de uma região da Spike, que não é compatível com a entrada humana mediada por ACE2”. Os autores, portanto, concluem que “os vírus relacionados ao SARS-CoV-2 têm uma distribuição geográfica muito mais ampla do que o relatado anteriormente e sugere que o Sudeste Asiático representa uma área importante a ser considerada para vigilância futura de coronavírus.”. Porém, essa incompatibilidade de sua proteína Spike com o receptor ACE2 humano ainda deixa uma peça faltando: essa modificação foi fruto de eventos de recombinação que ocorreram entre morcegos? Ou entre morcegos e outros hospedeiros intermediários? Ou até mesmo com humanos?

Essa peça faltante começou a aparecer no início de 2022, em que uma publicação da Nature demonstrou que vírus muito próximos ao SARS-CoV-2 e com capacidade de se ligar ao receptor humano ACE2 foram encontrados em morcegos de cavernas no norte do Laos, indicando, nas palavras dos autores, que “vírus semelhantes ao SARS-CoV-2 transmitidos por morcegos que são potencialmente infecciosos para humanos circulam em Rhinolophus spp. na península da Indochina”.

Com indicativos importantes apontando para a origem natural do SARS-CoV-2, como os eventos específicos relacionados a pandemia da Covid-19 poderiam ter ocorrido? Qual a relação do mercado de frutos do mar de Huanan, em Wuhan? Essas peças são discutidas em dois importantes artigos. O primeiro, publicado na revista Science por Michael Worobey em 2021, analisa a sequência de eventos dos primeiros casos de covid-19 em Wuhan, trazendo associações importantes ao mercado de Huanan, com tanto a linhagem A, quanto a linhagem B do SARS-CoV-2 provavelmente ocorrendo nesse local. 

No entanto, em 2022 que Worobey e colaboradores, com dados divulgados em uma pré-impressão, conseguiram determinar que o mercado de Huanan foi o epicentro da emergência do SARS-CoV-2, e que “essa emergência é um resultado de pelo menos dois eventos zoonóticos”, como descrito em outra pré-impressão de Worobey e colaboradores. Segundo estes últimos dados, “a primeira transmissão zoonótica provavelmente envolveu vírus da linhagem B e ocorreu no final de novembro/início de dezembro de 2019 e não antes do início de novembro de 2019, enquanto a introdução da linhagem A provavelmente ocorreu semanas após o primeiro evento”.

Esse conjunto de dados traz indicativos para a hipótese da origem natural do SARS-CoV-2, somando mais um quebra-cabeças à relação de nossa espécie com os coronavírus, os quais já são nossos conhecidos de eventos passados, como nas epidemias de SARS e da MERS, com início em 2002 e 2012, respectivamente. Esses eventos ressaltam a relevância no investimento em vigilância genômica e monitoramento de agentes infecciosos de interesse para a saúde pública local, e também global, para evitarmos novas epidemias e pandemias no futuro próximo.

Escritora Mellanie Fontes Dutra da Silva
Revisor Dr. Alexandre Naime Barbosa

Nota: o Blogs de Ciências da Unicamp publicou um texto autorado por Mellanie F. Dutra, Lívia Okuda Santos e Ana Arnt abordando sobre as hipóteses da origem do SARS-CoV-2 e do Neo-CoV. Você pode acessá-lo em: https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/sars-e-neo-cov-sobre-morcegos-pangolins-e-a-familia-dos-coronavirus/

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