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Duração da Efetividade das Vacinas contra a Covid-19

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Duração da Efetividade das Vacinas contra a Covid-19

Desde que a Covid-19 emergiu como pandemia global no início de 2020, o mundo todo – e com velocidade sem precedentes – se voltou para estudos relacionados a criação de terapias e vacinas contra a doença. De forma surpreendente e como um marco na história do desenvolvimento de vacinas humanas, a imunização preventiva contra o SARS-CoV-2 já estava disponível para uso poucos meses após o início de sua elaboração.1 

Como a ampla campanha de imunização está sendo implementada rapidamente em todo o mundo, a maioria dos países alcançou altos níveis de cobertura vacinal com um total de mais de 11.700 milhões de doses administradas até o momento.2 Tal sucesso científico contribuiu fortemente com a drástica redução nos casos e óbitos por Covid-19. 

Sabe-se que a eficácia de uma vacina (taxa fornecida por estudos clínicos controlados) ou sua efetividade (taxa calculada através de estudos mais abrangentes e de “mundo real”) dependem de sua capacidade de induzir uma resposta imune protetora. Entretanto, a duração dessa proteção conferida ainda permanece como questão pertinente. Determinar esse “tempo” requer uma análise cuidadosa, pois vários aspectos precisam ser considerados. A seguir, estão apresentados alguns deles.

  1. A imunidade individual, fatores genéticos e características do hospedeiro: sabe-se que, além da idade ser uma variável que pode influenciar na robustez e duração da imunidade (conferindo maior susceptibilidade entre os idosos, devido à imunossenescência) 1,3 também existe uma variedade de fatores intrínsecos responsáveis por fornecer diferentes respostas imunológicas entre os indivíduos, como a resistência natural, singularidade / diversidade genômica e o estado fisiológico (presença ou não de comorbidades, especialmente a imunossupressão);
  2. Fatores virais: apesar da vacinação estimular uma resposta imune cruzada entre as variantes,1,4 cada uma delas têm suas peculiaridades, como a infectividade, patogenicidade, virulência, transmissibilidade e mecanismos de escape próprios;
  3. Fatores relacionados aos imunizantes: o tipo de plataforma vacinal utilizada leva a diferentes mecanismos de ação e duração das respostas imunológicas (vacinas inativadas geram memória menos eficaz e menos duradoura que outros tipos vacinais). Além disso, o número de doses recebidas também terá impacto (quanto mais doses, maior efetividade e tempo de proteção), bem como o intervalo de tempo considerado entre os imunizantes (quanto mais longo, mais forte é a resposta imune conferida) e a composição dos esquemas vacinais em suas doses de reforço (relacionado a intercambialidade – esquema heterólogo parece fornecer melhor resposta que o homólogo).1, 3,4 
  4. Instrumentos e metodologia de análise: Outro refinamento necessário é o de se considerar marcadores sorológicos de proteção contra infecção ou doença, que tenham um valor preditivo melhor do que a neutralização, pois evidências emergentes sugerem que os anticorpos neutralizantes (NAbs) possuem declínio de titulação mais acentuado ao longo de vários meses, em relação a outros mecanismos imunológicos que também atuam na proteção, como a resposta mediada por células T e memória imunológica, que parecem ser mais robustas, constantes e persistentes.1,4,5 Além disso, o próprio método de análise de dados pode refletir em resultados divergentes sobre o tempo de duração de proteção ou nas taxas de efetividade. Por exemplo, para reduzir o viés de confusão, as análises de dados observacionais devem ser realizadas em modelos multivariados, ou ser ajustadas para características individuais (idade, sexo, etc.) e geográficas (considerando o tipo de variantes virais emergentes) em função do tempo desde a vacinação, utilizando testes estatísticos apropriados.5

Após explanação acima, vamos aos números encontrados na literatura. Zhuang et al. (2022)1 discutem dados sobre a duração da proteção conferida por vacinas. Ao analisar a cinética da resposta imune, verificou-se que os imunizantes BNT162b2 (Pfizer-BioNTech) e mRNA-1273 (Moderna) foram caracterizados por resposta inicial elevada de anticorpos neutralizantes com diminuição acentuada em 6 meses, diferentemente do Ad26.COV2.S (Janssen) que demonstrou resposta inicial mais baixa de NAbs, mas que foram relativamente estáveis, ou seja, ​​com evidência de declínio menor. Entretanto, após 8 meses, as 3 vacinas ainda respondiam nos testes de fagocitose celular, deposição de complemento e frequência de células T CD4+ e CD8+, mostrando que a investigação da resposta imune não pode ser limitada apenas à observação de NAbs.

Imunidade cruzada entre diversas variantes foi relatada para estas vacinas. No contexto da variante Delta como a cepa epidêmica dominante, considera-se que a eficácia das vacinas pode começar a diminuir após 3 meses do esquema vacinal completo. Após 9 meses, a eficácia do BNT162b2 contra a infecção diminuiu de 94,3% para 63,2%, enquanto o mRNA-1273, de 96% para cerca de 80%. Porém, um dado bastante otimista foi que não houve evidências do declínio de efetividade contra internações e óbito, que para estes casos, foi de mais de 75% para BNT162b2, mRNA-1273 e AZD1222 (AstraZeneca/Oxford) e mais de 68% para Ad26.COV2.S.1

Ao analisar os mesmos imunizantes, estudo de efetividade de Lin et al. (2022)5 envolvendo mais de 10 milhões de pessoas (residentes em Carolina do Norte, EUA) evidenciou que a proteção contra hospitalização e morte foi duradoura. No caso de hospitalização, as taxas verificadas 2 e 7 meses após imunização foram, respectivamente: de 96.4% e 88.7% para BNT162b2 (2 doses); de 97.2% e 94.1% para mRNA-1273 (2 doses); e de 85.8% e 80% para Ad26.COV2.S (1 dose). Já a taxa de efetividade contra óbitos foram, nestes mesmos períodos: de 98.0% e 90,5% para BNT162b2; de 98.6% e 95,5% para mRNA-1273; e de 85.9% e 70% para Ad26.COV2.S. Para todas as três vacinas, a eficácia tendeu a ser menor entre adultos de 65 anos ou mais, quando comparados aos adultos de 18 a 64 anos.5

Em outro estudo de mundo real, Andrews et al. (2022)3 também encontraram resultados semelhantes em cerca de 5 milhões de pessoas da Inglaterra. Apesar de diminuição da efetividade das vacinas após 5 meses da imunização completa, contra a doença assintomática (variante delta; 44,3% ChAdOx1-S [AstraZeneca/Oxford] e 66,3% BNT162b2), o declínio foi menor contra as taxas de hospitalização (80% ChAdOx1-S e 91,7% BNT162b2) e de óbito (84,8% ChAdOx1-S e 91,9% BNT162b2). Foi observado também que a efetividade contra a variante alfa foi ligeiramente maior, em relação à delta e que o declínio de proteção foi mais expressivo entre os idosos e entre aqueles adultos que pertenciam a grupos de risco clínico.

Esses achados levantam questões importantes sobre o momento da terceira dose da vacina em adultos. Nota-se que após 5 meses do esquema vacinal completo, há queda nos níveis de proteção contra a infecção por SARS-CoV-2, tanto em estudos clínicos quanto de mundo real, mas há uma certa estabilidade nessas taxas no caso de hospitalização e óbito, principalmente em pessoas mais jovens. Há necessidade de estudos que acompanhem a efetividade por mais tempo na população, e envolvendo outras vacinas administradas como a CoronaVac, cujos dados ainda são escassos. Portanto, entender qual é a duração da imunidade conferida pelas vacinas permanece um grande desafio. Enquanto esta resposta não é definida, as atitudes – individuais, coletivas e governamentais – vão traçando o cenário da pandemia. Então, diante da situação complexa e incerta, são necessários esforços contínuos para otimização das vacinas, bem como a priorização em relação à vacinação primária e implementação de campanhas de reforço, monitoramento de evolução e mutação do vírus, além de se considerar adoção contínua de medidas restritivas / barreiras para frear a transmissão. 

Escritor Karen Ingrid Tasca
Revisor Dr. Alexandre Barbosa Naime

Referências

  1. Zhuang C, et al. Protection Duration of COVID-19 Vaccines: Waning Effectiveness and Future Perspective. Front Microbiol. 2022; 13:828806. doi:10.3389/fmicb.2022.828806.
  2. Mathieu E, et al. A global database of COVID-19 vaccinations. Nat Hum Behav. 2021; Disponivel em https://ourworldindata.org/covid-vaccinations?country=OWID_WRL
  3. Andrews N, et al. Duration of Protection against Mild and Severe Disease by Covid-19 Vaccines. N Engl J Med. 2022; 386(4):340-350. doi:10.1056/NEJMoa2115481.
  4. Feikin DR, et al. Duration of effectiveness of vaccines against SARS-CoV-2 infection and COVID-19 disease: results of a systematic review and meta-regression. Lancet. 2022; 399(10328):924-944. doi: 10.1016/S0140-6736(22)00152-0.
  5. Lin DY, et al. Reliably Assessing Duration of Protection for COVID-19 Vaccines. J Infect Dis. 2022; jiac139. doi:10.1093/infdis/jiac139.
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