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Diagnóstico de Tuberculose Latente: Novas Alternativas

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Diagnóstico de Tuberculose Latente: Novas Alternativas

A Infecção Latente pela Tuberculose ou Tuberculose Latente (ILTB) refere-se à condição de estado de resposta imunológica persistente aos antígenos do Mycobacterium tuberculosis (MT) sem que haja evidência de manifestação clínica da doença ativa.1 Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que até um terço da população mundial apresenta a infecção pelo bacilo, sendo que 5 a 10% destes irão desenvolver a Tuberculose ativa ao longo da vida.1

Cada vez mais a ILTB tem sido compreendida não como um estágio fixo da infecção pelo M. tuberculosis, mas como parte de um espectro da doença, que pode avançar a fases seguintes até a sua forma ativa, a depender, principalmente, da atividade do agente e da resistência do hospedeiro.2 Dessa forma, é de suma importância o diagnóstico e tratamento da infecção em seu estágio latente, quando indicada, como forma de prevenção de evolução para a tuberculose ativa.1

Dentre as ferramentas diagnósticas para a ILTB, a mais amplamente utilizada e conhecida é a prova tuberculínica (PT), que consiste na reação cutânea contra antígenos do M. tuberculosis presentes na injeção intradérmica de derivado proteico purificado (PPD).3   No entanto, esse método possui limitação importante para a confirmação da ILTB devido sua baixa especificidade, visto que o PPD é uma mistura de diversos antígenos do próprio MT, bem como de outras micobactérias não tuberculosas e da BCG.3

O interferon-gamma release assays (IGRA) corresponde a um método diagnóstico laboratorial baseado na detecção de interferon-gama (IFN-γ) liberado por linfócitos T de memória sensibilizados por antígenos do MT.3 O princípio é semelhante ao do teste tuberculínico, entretanto sua grande vantagem está no fato de utilizar apenas 2 antígenos do MT (ESAT-6 e CFP-10), que estão ausentes na BCG e na maioria das demais micobactérias, dando ao IGRA maior especificidade para o diagnóstico da ILTB.3 

Este método em si não é descoberta recente, contudo vem sendo aprimorado, estando disponíveis e comercialmente conhecidos o T-SPOT.TB, método imunoenzimático simplificado que quantifica células T efetoras específicas que foram ativadas após exposição aos antígenos do MT, o QuantiFERON Gold in tube (QFT-GIT) e, mais recentemente, o QuantiFERON Plus (QFT-Plus), sendo que a diferença desses dois últimos é que o QFT-Plus apresenta antígenos para estímulo não só dos linfócitos TCD4+, mas também dos linfócitos TCD8+, algo que, em tese, potencializa sua sensibilidade diagnóstica.4 Ainda sobre o QFT-Plus, postula-se que a sensibilização dos linfócitos TCD8+ pode, possivelmente, ser um indicador de infecção recente e de atividade da doença, algo que tem sido buscado em novos métodos diagnósticos de ILTB.

Uma opção que poderia aprimorar o IGRA seria a utilização de outros antígenos do M. tuberculosis, como, por exemplo, o Esx-1.2 Essa proteína está presente no MT tanto em pessoas com tuberculose ativa quanto tuberculose latente e poderia servir de marcador naqueles que não reagem ao ESAT-6 e nem o CFP-10, como acontece em alguns casos de testagem pelo IGRA.2  

Outra alternativa promissora em desenvolvimento é o C-TB skin test, teste de reação cutânea, como a prova tuberculínica, mas que, assim como o IGRA, utiliza apenas os antígenos ESAT-6 e CFP-10.5 Sua potencial vantagem se relaciona ao fato de que o teste deve combinar a simplicidade e baixo custo da PT com a alta especificidade do IGRA.2

Algumas pesquisas têm, mais recentemente, focado em métodos de identificação de genes associados ao risco de desenvolvimento de tuberculose, bem como alterações genéticas induzidas pela presença da micobactéria no organismo, com consequente maior expressão de genes codificadores de proteínas chamadas “antígenos de latência”.2,3,5 Tais mudanças poderiam se relacionar com a presença da infecção e, possivelmente, predizer quais indivíduos podem vir a desenvolver a doença.3

O uso da tecnologia, como na tomografia por emissão de pósitrons (PET/CT), também pode ser um aliado para a detecção da infecção latente pelo M. tuberculosis e predição de progressão de doença, como já demonstrado em estudo que detectou a presença de micobactérias no pulmão e linfonodos de pacientes vivendo com HIV.3

As perspectivas futuras para o diagnóstico da ILTB, portanto, têm como alvo métodos não só altamente sensíveis e específicos, de baixo custo e fácil distribuição e realização, mas especialmente a identificação de biomarcadores que, além de permitirem o diagnóstico da ILTB, permitam a predição de risco de progressão para a doença ativa, algo em que os testes atuais ainda possuem limitações.4

Escritor Flávio P. Brandt
Revisor Dr. Alexandre Barbosa Naime

Referências:

  1. World Health Organization (WHO). Latent Tuberculosis Infection: updated and consolidated guidelines for programmatic management. Geneva: WHO; 2018.
  1. Carranza C, et al. Diagnosis for latent tuberculosis infection: new alternatives. Front. immunol. 2020;11:1-13.
  1. Zellweger JP, et al. The diagnosis of latent tuberculosis infection (LTBI): currently available tests, future developments, and perspectives to eliminate tuberculosis. Med Lav. 2020;111(3):170-183.
  1. Haas MK, Belknap RW. Diagnostic tests for latent tuberculosis infection. Clin Chest Med. 2019;40:829-837.
  1. Leung CC, Chee C, Zhang Y. Latent tuberculosis infection: opportunities and challenges. Respirology. 2018;23(10):893-900.
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