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Chikungunyia: atualização epidemiológica e do manejo clínico

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Chikungunyia: atualização epidemiológica e do manejo clínico

Pertencente à família Togaviridae, do gênero Alphavirus, a chikungunya é uma importante arbovirose, causada pelo chikungunya vírus (CHIKV), e transmitida pela picada das fêmeas dos mosquitos do gênero Aedes (aegypti e albopictus) infectadas pelo vírus.1 

O primeiro caso em território nacional foi identificado no Rio de Janeiro, em 2010, em um paciente que retornava da Indonésia, país endêmico para a infecção.2 Já os primeiros casos autóctones identificados no Brasil foram registrados no segundo semestre de 2014, inicialmente nos estados do Amapá e Bahia.1 Atualmente, todos os demais estados do país já registraram casos autóctones da infecção pelo CHIKV.1

Apenas no ano de 2021, até o final do mês de novembro, foram notificados cerca de 93.043 casos prováveis de chikungunya no país, resultando numa taxa de incidência de 43,6 casos por 100 mil habitantes, números que correspondem a um aumento de 33,2% dos casos em relação ao ano de 2020.3 A maior incidência foi apresentada pela região Nordeste, seguida pelas regiões Sudeste e Centro-Oeste.3 Até a data analisada, no ano de 2021, foram confirmados 13 óbitos pela doença, maioria no estado de São Paulo, com seis.3 Casos graves e óbitos, apesar de infrequentes, ocorrem com mais frequência em extremos de idade e pacientes com comorbidades.1

Após um período de incubação que varia de 1 a 12 dias, em média 4 a 7 dias, inicia-se a fase aguda da infecção, com febre alta, rash cutâneo e intensa poliartralgia.2 Mais de 90% dos pacientes apresentam a queixa de poliartralgia na fase aguda da infecção pelo CHIKV, geralmente assumindo caráter poliarticular, bilateral e simétrico.1 Até 25% dos pacientes podem ter infecção assintomática.2 Alguns pacientes permanecem com sintomas após a fase aguda, entrando, portanto, na fase pós-aguda (ou subaguda), em que a febre costuma desaparecer, mas há persistência dos sintomas articulares.2 Estes, quando ultrapassam um período de 3 meses, definem a fase crônica da doença.2

A prevalência de casos crônicos é bastante variável nos estudos epidemiológicos realizados, podendo acometer mais de 50% dos indivíduos.1 Alguns deles trazem números ainda maiores, com cronificação de 57% dos pacientes em 15 meses e, após 2 anos, até 47% dos casos.2 Esta é uma fase de extrema relevância, devido seu grande potencial de impacto econômico e social, causado pela possível incapacidade física sequelar da infecção, com repercussões na qualidade de vida e capacidade laboral dos pacientes, e que pode durar meses a vários anos.1, 4 Também consequência disso, têm sido reportados problemas associados à saúde mental dos pacientes.2

Durante a fase aguda, tendo em vista a inexistência de medicamentos antivirais específicos para a infecção pelo CHIKV, o manejo clínico compreende a correta avaliação e estratificação de gravidade do caso e instituição de medidas de suporte sintomático, especialmente o controle de dor, que é um dos principais preditores para a artralgia crônica.1,4 É recomendada a abordagem escalonada da dor, com utilização de ferramentas validadas para tal fim, como a escala analógica visual (EVA) para dor.1 Dessa forma, analgésicos comuns devem ser preferidos nas fases iniciais, com posologia otimizada, passando à associação de opiáceos em casos refratários.1 A utilização de anti-inflamatórios não esteroidais (AINE’s) deve ser evitada na fase aguda, especialmente se o diagnóstico diferencial de dengue não tiver sido descartado, assim como os esteroidais, devido potencial de aumento da viremia.1, 4

Nas fases pós-aguda (ou subaguda) e crônica, com dor moderada a intensa, o uso de corticosteroides em baixas doses e por tempo limitado pode ser indicado.1,5 Além disso, drogas como a hidroxicloroquina, metotrexato e sulfassalazina têm sido aplicadas no manejo dos pacientes com dor articular na fase crônica da infecção pelo CHIKV, devido seus efeitos anti-inflamatórios conhecidos na abordagem de algumas doenças reumatológicas crônicas.1,5

Esforços têm sido realizados no intuito de desenvolver drogas antivirais específicas, bem como vacinas contra o chikungunya.4,5 Estudos in vitro e em camundongos com drogas como o sofosbuvir e ribavarina demonstraram efeitos inibitórios na replicação viral do CHIKV.2,6 Já em relação às vacinas, encontram-se em fase 2 de testes a TSI-GSD-218, vacina de vírus vivo atenuado desenvolvida pelo US Army Medical Research Institute of Infectious Diseases, e a VRC-CHKV, vacina de partículas pseudovirais desenvolvida pelo National Institute of Allergy and Infectious Diseases.2,4 

Para mais detalhes e aprofundamento acerca da correta estratificação clínica de casos suspeitos, orientações terapêuticas, drogas utilizadas, de acordo com as recomendações nacionais e internacionais, devem ser consultados diretamente o manual de manejo clínico da chikungunya do Ministério da Saúde e demais referências utilizadas nesse artigo.1-6

Escritor Flávio P. Brandt
Revisor Dr. Alexandre Barbosa Naime

Referências:

  1. Ministério da Saúde (MS). Chikungunya: manejo clínico. Brasília: MS; 2017.
  2. Manzoor KN, et al. The global emergence of chikungunya infection: an integrated view. Rev Med Virol. 2021;e2287.
  3. Ministério da Saúde (MS). Monitoramento dos casos de arboviroses urbanas causados por vírus transmitidos pelo mosquito Aedes (dengue, chikungunya e zika), semanas epidemiológicas 1 a 47, 2021. Brasília: MS; 2021.
  4. Vairo F, et al. Chikungunya: epidemiology, pathogenesis, clinical features, management and prevention. Infect Dis Clin N Am. 2019;33:1003-1025.
  5. Pathak H, et al. Chikungunya arthritis. Clinical medicine. 2019;19(5):381-385.

Ferreira AC, et al. Beyond members of the Flaviviridae Family, Sofosbuvir also inhibits chikungunya virus replication. Antimicrobial agents and chemotherapy. 2019;63(2):e01389-18.

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