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A importância de manter a carga viral indetectável em pessoas vivendo com HIV/aids

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A importância de manter a carga viral indetectável em pessoas vivendo com HIV/aids

A infecção pelo HIV é caracterizada por constante replicação do vírus e perda progressiva de células T CD4+, culminando no desenvolvimento da doença aids1, que já dizimou cerca 36,3 milhões de pessoas em todo o mundo2. No entanto, desde o advento da terapia antirretroviral (TARV), o cenário da infecção mudou completamente, apresentando marcante redução da morbidade e mortalidade das pessoas que vivem com HIV/aids (PVHA)3.

Os benefícios promovidos pelo uso dos antirretrovirais acontecem porque eles atuam em diferentes fases do ciclo viral, impedindo a replicação do HIV. Com a adesão correta à TARV, a carga viral plasmática do HIV declina rapidamente, chegando a níveis indetectáveis dentro de 6 meses. Considerando tais benefícios, a Organização Mundial da Saúde recomenda o início imediato da TARV a todas pessoas diagnosticadas com a infecção, independente do estágio clínico ou imunológico que apresentam3

Manter a carga viral indetectável está diretamente relacionada com a maior sobrevida dos pacientes, pois evita a depleção das células TCD4+ e a evolução para aids. De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV/aids do Ministério da Saúde (2021), a taxa de mortalidade por aids sofreu decréscimo de 30,6% entre 2014 e 2020, provavelmente em consequência da recomendação do “tratamento para todos” a partir de 2014, bem como da ampliação do diagnóstico precoce da infecção pelo HIV4. Além disso, impacta também na economia do sistema público de saúde, evitando gastos com internações e tratamento de infecções oportunistas5. Assim, é observado um estrondoso aumento da expectativa de vida das PVHA após a era TARV. Estudos demonstram que PVHA tratadas com sucesso apresentam expectativa de vida similar a população em geral6

O HIV também é responsável por causar danos diretos ao organismo, como nefropatias, alterações neurológicas, cardiosvasculares, entre outras. Assim, manter a quantidade de HIV circulante a níveis indetectáveis impacta consideravelmente na diminuição de morbidades, melhorando a qualidade de vida das PVHA, reduzindo também o custo com o tratamento de outras doenças3.

Outro fator importante é que a replicação do HIV leva a persistente ativação imunológica e inflamação nas pessoas infectadas, os quais também são determinantes de morbidade e mortalidade não associadas à aids. Assim, atingir e manter a carga viral indetectável preserva a imunidade inata e adquirida e acelera a restauração imunológica1, além de evitar os danos/comorbidades causados pela inflamação sistêmica3.

Evidências científicas também demonstraram que PVHA virologicamente suprimidas não transmitem o HIV por via sexual, o que levou a criação do slogan I=I (indetectável=intransmissível)7. Esse fator tem grande impacto na redução da transmissão do HIV e no número de novos casos3.

Iniciar a TARV imediatamente também contribui para limitar a quantidade de vírus integrado ao DNA do hospedeiro, reduzindo o reservatório pró viral. Assim, nos indivíduos que mantém a carga viral indetectável, o HIV está presente apenas de forma latente nas células inicialmente infectadas, embora ainda exista uma replicação residual. Uma vez que nossas células possuem tempo de vida limitado, esse reservatório iria aos poucos sendo eliminado, aumentando as chances de uma possível “cura” no futuro1. Considerando os reservatórios celulares infectados latentemente com meia-vida longa, estima-se que um indivíduo levaria 60 anos para erradicar o vírus8.

 Diante de todos esses benefícios, a TARV foi considerada o maior avanço da pesquisa na área de HIV/aids, promovendo supressão viral, com consequente redução da transmissão do HIV, melhora da função imunológica e redução da inflamação, diminuição da morbimortalidade e aumento da expectativa e qualidade de vida das PVHA3

Escritora Fernanda Conte
Revisor Dr. Alexandre Naime Barbosa

Referências:

  1. Sáez-Cirión A, Bacchus C, Hocqueloux L, et al. Post-treatment HIV-1controllers with a long-term virological remission after the interruption of early initiated antiretroviral therapy ANRS VISCONTI Study. PLoSPathog. 2013, 9(3):1-12.
  2. Joint United Nations Programme on HIV/AIDS (UNAIDS). Global report: UNAIDS report on the global AIDS epidemic. s.l.: Disponível em: https://unaids.org.br/estatisticas/. 2022.
  3. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para manejo da infecção pelo HIV em adultos. 2018.
  4. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico HIV/Aids. 2021. 
  5. Galvão, J. 1980-2001: Uma cronologia da epidemia de HIV-AIDS no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro; Coleçäo ABIA: políticas públicas, 2, 2002. 30 p.
  6. May MT, Gompels M, Delpech V. Impact on life expectancy of HIV-1 positive individuals of CD4R cell count and viral load response to antiretroviral therapy. AIDS 2014, 28:1193–1202
  7. Brasil, Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais NOTA INFORMATIVA Nº 5/2019-.DIAHV/SVS/MS. Brasília, 14 de maio de 2019.
  8. Sonza S, Crowe SM.  Reservoirs for HIV infection and their persistence in the face of undetectable viral load. AIDS Patient Care STDS. 2001; 15(10):511-8.
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