Você recusaria atendimento a quem não aceita vacinas?


Estados Unidos (Reuters Health) — Os médicos do atendimento primário que recusam os pacientes que não querem tomar vacinas podem ter interesse em considerar as razões éticas e morais por trás de suas decisões, de acordo com um grupo de especialistas em bioética e pediatras.

Nos últimos anos, mais pediatras optaram por recusar o atendimento às famílias que se negam a tomar vacinas, o que pode se tornar problemático, principalmente com a perspectiva de uma vacina contra a covid-19 no horizonte, escreveram Dr. Mark Navin, da Oakland University, nos Estados Unidos, e colaboradores no periódico Pediatrics.

“Do ponto de vista moral, existe uma enorme diferença entre expulsar uma família do seu consultório de pediatria depois de terem recusado sistematicamente as vacinas (talvez durante meses ou anos) e só aceitar atender famílias que concordem de antemão em permitir que seus filhos recebam todas as vacinas”, disse o Dr. Mark à Reuters Health por e-mail.

A American Academy of Pediatrics (AAP) afirma que dispensar as famílias que recusam sistematicamente as vacinas é uma opção aceitável se houver problemas de confiança ou de comunicação e todas as opções tiverem sido esgotadas. No entanto, algumas clínicas foram além e se recusam a aceitar esses pacientes desde o início, disse o Dr. Mark.

“A AAP diz que a primeira opção algumas vezes é justificável, mas ninguém tem falado sobre esta segunda opção, embora saibamos que está acontecendo, mesmo que claramente não tenha o respaldo da AAP”, disse o médico.

Em seu novo artigo, Dr. Mark e colaboradores trazem à tona várias questões éticas em torno da recusa em atender pacientes. Por exemplo, o Código de Ética Médica da American Medical Association (AMA) afirma que a relação no consultório é uma associação livre entre médicos e pacientes, portanto, os médicos podem reivindicar seu “direito à escolher” seus pacientes.

Ao mesmo tempo, essa liberdade não significa necessariamente que todas as escolhas sejam éticas, escreveram os autores, acrescentando que os médicos devem usar sua autonomia profissional por boas razões e para o benefício dos pacientes.

Os médicos podem negar atendimento aos pacientes que demandarem procedimentos inadequados do ponto de vista médico, apontam os autores, se o médico não puder prestar atendimento com competência ou se o fato de aceitar novos pacientes possa comprometer o atendimento aos pacientes já existentes.

Embora os médicos possam argumentar que os pacientes que recusam a vacinação estão exigindo um atendimento inadequado, os autores dizem que isso é incorreto — na verdade, os pacientes estão rejeitando determinado tipo de tratamento apropriado. De acordo com essa linha de argumentação, os pacientes que recusam a vacinação podem ser equiparados aos que não tomam os medicamentos prescritos ou não fazem os exames complementares.

Dr. Mark e colaboradores também ponderaram que os médicos não devem atender somente as famílias transigentes, porque isso vai de encontro aos princípios do tratamento direcionado ao paciente. Em vez disso, os médicos devem estar dispostos a colaborar com as famílias e a encontrar soluções que correspondam aos valores e às preferências dos pacientes, escreveram os autores. Ao tratar de comunidades heterogêneas os médicos devem abraçar os valores de abertura e tolerância, acrescentaram.

Além disso, os objetivos dos médicos ao rejeitar os pacientes que recusam a vacinação podem estar equivocados, escreveram os autores. Os médicos podem acreditar que a ameaça de não serem mais atendidos irá incentivar os pacientes a tomar as vacinas, mas essa estratégia é antiética e o tiro pode sair pela culatra, principalmente nas comunidades onde não existem muitos pediatras. Isso também cria uma relação de antagonismo, em vez do tom afável e colaborativo que pode ser útil nas conversas sobre vacinas, escreveram os autores.

Em última análise, alguns médicos podem dispensar os pacientes que recusam a vacinação para preservar sua integridade profissional e não permitir que o nível do atendimento prestado em seu consultório seja prejudicado. Isso faz sentido, desde que os médicos tenham feito “tentativas de boa fé” para orientar as famílias e defender o seu padrão de atendimento em relação às imunizações, escreveram os autores. Os profissionais que não tentam ter essa conversa, no entanto, podem não estar cumprindo seu compromisso com a integridade profissional necessária, escreveram.

“Os pediatras que, depois de os esforços de persuasão terem falhado, acabaram dispensando algumas famílias por recusarem a imunização, podem ter feito sua parte para promover a vacinação. Pelo menos eles tentaram”, disse o Dr. Mark. “Mas os pediatras que sequer aceitam atender as famílias que recusam a vacinação provavelmente não fizeram o bastante.”

Com várias vacinas contra a covid-19 com potencial de aprovação no ano que vem, essas conversas com pais e pacientes indecisos em relação à vacina podem se tornar cada vez mais importantes, disse o Dr. Joshua Williams, médico do Denver Health Medical Center, nos EUA.

O Dr. Williams, que não participou da redação do novo artigo, escreveu sobre as alternativas à negação de atendimento das famílias que hesitam em aceitar a vacinação.

“Será mais importante do que nunca que os profissionais de saúde trabalhem juntos no intuito de quebrar mitos e resolver preocupações”, disse Dr. Joshua à Reuters Health por e-mail. “Agora não é o momento de fechar nossas portas aos pacientes ou pais que hesitam em vacinar – é justamente o momento de abri-las.”

 

FONTE: Reuters Health