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Síndrome de Borderline em adolescentes e a perspectiva de automutilação

São Paulo, 10 de junho de 2021
 

A Síndrome de Borderline ganhou certa notoriedade após milhares de brasileiros acompanharem o dia a dia da participante Raissa Barbosa na última edição de A Fazenda. Enquanto reportagens e matérias ganharam espaço, nem a própria emissora do reality show soube exatamente como lidar com o comportamento da jovem. A Síndrome de Borderline em adolescentes é grave e precisa de atenção.

A ignorância quanto ao diagnóstico e formas de tratamento do problema não são exclusividade do grande público. Dada a falta de preparo de profissionais para diagnosticar os indivíduos doentes, muitos não têm a oportunidade de se tratar corretamente e acabam cometendo suicídio.

Com o distúrbio ganhando cada vez mais visibilidade, é importante ter materiais confiáveis a respeito do assunto para consultar, pois muitos fatores relacionados às suas causas ainda estão sob investigação. Por exemplo, há fortes indícios de que o convívio familiar e social na época da adolescência contribui para o agravamento das manifestações da síndrome, como discutiremos mais adiante.

Síndrome de Borderline: causas e sintomas

Borderline é um termo que faz referência tanto a uma síndrome quanto a um transtorno. Assim sendo, não possui uma única fisiopatologia.

Aqueles que definem o problema como uma síndrome assumem que se trata de uma reunião de sintomas associados a mais de uma causa. Portanto, assume-se que os sintomas observados nem sempre se devem a apenas uma disfunção.

Por outro lado, enquanto transtorno, o problema recebe o nome de Transtorno de Personalidade Limítrofe. Ademais, o pressuposto é de que se trate de uma alteração na saúde da pessoa, que pode ter ligação com um problema psicológico. Nesse caso, é também é possível chamar o problema de distúrbio.

Independentemente da escolha etimológica que os profissionais atribuam ao problema, os sintomas costumam ser os mesmos:

  • instabilidade emocional e de humor;
  • ideação suicida;
  • conflitos de autoimagem;
  • instabilidade nos relacionamentos interpessoais;
  • comportamento auto-mutilatório.

A literatura aponta para causas de ordem neurobiológica, genética e psicossocial também. No que diz respeito ao aspecto neurobiológico, há trabalhos que sugerem que os indivíduos com Borderline apresentam alterações nos processos que ocorrem no córtex orbitofrontal, no córtex cingulado anterior, na amígdala, no hipocampo e no córtex insular.

Por outro lado, as causas genéticas indicam que pode haver a transmissão de um marcador genético da síndrome, de uma geração para a outra.

Por fim, no que tange as causas piscossociais, há fortes evidências de que presenciar acontecimentos traumáticos na infância pode impactar severamente o psicológico de uma pessoa. São exemplos disso:

  • negligência;
  • abuso sexual, verbal ou físico;
  • separação de pessoas do âmbito familiar;
  • morte de parentes próximos.

Quando os primeiros sintomas da Síndrome de Borderline em adolescentes começam a aparecer?

De acordo com a literatura médica, é possível diagnosticar com segurança a Síndrome de Borderline a partir dos 11 anos de idade. Contudo, o final da adolescência é o momento em que os sintomas se apresentam com mais expressividade.

Infelizmente, os adolescentes expressam a sintomatologia da síndrome por meio de comportamentos altamente prejudiciais, como a automutilação recorrente. Geralmente, os sinais da Síndrome de Borderline em adolescentes se manifestam entre os 14 e 17 anos de idade.

Contudo, nesse período, a automutilação não tem a ideação suicida consciente e nem se restringe apenas a cortes no corpo. Algumas outras formas de se automutilar incluem:

  • saltar de um lugar elevado;
  • ingerir medicações sem receita e/ou fora da posologia recomendada;
  • usar drogas ilícitas ou substâncias psicoativas;
  • ingerir substâncias ou objetos que não devem ser ingeridos.

O fato de a Síndrome de Borderline se manifestar com mais transparência na adolescência faz sentido na medida em que essa é a fase da vida em que o ser humano se percebe em contraste com a sociedade enquanto deixa a infância e passa pelo processo de se tornar um adulto. Ademais, enquanto esse crescimento ocorre, essa pessoa ainda passa por várias alterações biológicas, hormonais e emocionais.

Nesse contexto, quando o indivíduo apresenta os sintomas da síndrome Borderline enquanto enfrenta a adolescência, usa o próprio corpo como um local para descarregar o peso emocional de todas essas circunstâncias.

O papel da família

Nesse contexto de ebulição de sentimentos e convivência com os sintomas da Síndrome de Borderline, outro fator que contribui para o agravamento das consequências do problema é a falta de tato dos familiares perante o adolescente. Automutilação e suicídio não são temas agradáveis. Portanto, a discussão em torno deles é algo de difícil abordagem nas conversas com a família.

Apesar de a temática ser sensível, é necessário aprender como conversar sobre ela da maneira correta. Ademais, é importante que a família se comprometa a procurar e investir em um tratamento completo que atenue os comportamentos impulsivos da pessoa com Borderline.

Considerações finais

A Síndrome de Borderline é um problema ainda sem uma definição clara para a literatura. Contudo, quem apresenta os sintomas, apesar das causas, acaba manifestando os mesmos comportamentos altamente prejudiciais para a saúde. Ademais, o transtorno ainda conta com uma consequência drástica que permanece sempre à espreita: o suicídio do indivíduo.

Nesse contexto de ameaça constante, em primeiro lugar, é necessário investir esforços em conseguir um diagnóstico acertado. Ademais, é necessário encontrar um tratamento completo que ajude o adolescente com Borderline a controlar seu comportamento impulsivo e os sintomas mais graves do problema. A saber, a automutilação e a ideação suicida.

Essa não é uma tarefa fácil para alguém que está saindo da infância e rumando para a vida adulta. Portanto, além de contar com o apoio de profissionais capacitados para realizar diagnóstico e tratamento, importa como as pessoas próximas ajudam o adolescente a lidar com o transtorno.

Uma vez que o Borderline afeta a estabilidade dos relacionamentos interpessoais, é necessário ter paciência e elaborar estratégias que facilitem o convívio familiar.

Nesse contexto, fica evidente o quanto o acompanhamento com profissionais competentes é importante. Quem deve ensinar a família e o adolescente o que fazer? Os profissionais que conhecem profundamente a Síndrome de Borderline, dentro do que é possível conhecer até então.

Para isso, é fundamental continuar estudando e se informando a respeito dos últimos estudos que investigam a Síndrome de Borderline em adolescentes. Dessa forma, será possível tranquilizar jovem e família quanto aos desafios que todos enfrentarão após um diagnóstico acertado.