Artigo

Pacientes coinfectados com HIV e Hepatite B e/ou C

São Paulo, 22 de abril de 2021
 

Infecções virais diversas estão presentes nas populações humanas e são identificadas cada vez mais. O vírus HIV está entre os mais importantes recentemente descobertos e é causador de uma epidemia global.

O HIV rapidamente se alastrou pela população, graças à sua transmissão relativamente fácil e uma demora na identificação e controle, principalmente no início de sua disseminação em larga escala, nos anos 70 e 80.

Além disso, outras infecções que apresentam vias de transmissão semelhantes acabam por aparecer entre a população infectada. Este é o caso dos vírus causadores da Hepatite B e Hepatite C.

Dessa forma, uma discussão extremamente importante se faz com relação aos pacientes coinfectados com HIV e Hepatite B e/ou C, para que formemos e nos tornemos profissionais da medicina mais preparados.

Apesar do variado grau de prevalência, a coinfecções entre dois ou mesmo três destes vírus deve ser observada com cuidado e avaliada o mais rápido possível. Isso porque pacientes nestas condições apresentam alto potencial de agravamento nas manifestações dos vírus e desenvolvimento de quadros graves e de alto risco, como hepatite crônica e cirrose hepática.

Ao longo do texto, veremos as características destes vírus, o que os números nos indicam nos casos de coinfecção e como podem ser graves para os pacientes.

O vírus HIV

Descrito em 1982, o vírus HIV faz parte do gênero Lentivirus, da família Retroviridae. Causador da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) ou AIDS, em inglês, como é mais comumente conhecida, o HIV se mostra um desafio enorme para pesquisadores, infectologistas e profissionais da saúde desde sua descoberta.

Ao longo das décadas, os tratamentos evoluíram de forma significativa. Isso garante aos pacientes mais qualidade de vida por tempo mais prolongado.

Ela se manifesta no sistema imunológico da pessoa infectada, que passa a ficar altamente debilitada graças ao ataque às células de defesa do organismo. Isso faz da AIDS uma doença que por si só não é mortal, mas apresenta alto risco quando associada a outras infecções, que antes poderiam ser simples, mas tomam agravadas proporções no sistema sem defesas apropriadas.

A principal via de infecção por HIV é através de sangue e fluídos corporais. Por isso, a transmissão sexual e por compartilhamentos de lâminas e agulhas é preocupante quando tratamos deste vírus.

Hepatite B

O vírus causador da Hepatite B (HBV) é pertencente à família Hepadnaviridae e ao gênero Orthohepadnavirus, cujos hospedeiros naturais são os próprios humanos.

O HBV possui uma taxa de infectividade elevada, o que faz dele perigoso mesmo quando em cargas virais baixas. Como principal alvo, os vírus têm as células hepáticas, ou seja, do fígado.

Dessa forma, quadros graves da doença apresentam um risco enorme para o organismo infectado, podendo desencadear casos avançados de doenças hepáticas, como cirrose hepática e hepatocarcinoma.

Descoberto em 1965, o vírus é extremamente prevalente na população humana. No Brasil, o Ministério da Saúde estimava que cerca de 15% da população já havia tido algum contato com ele.

Tem como principal vias de transmissão a sexual e parenteral.

Hepatite C

Parte do gênero Hepacivirus, da família Flaviviridae, o HCV, vírus causador da Hepatite C, também possui alta prevalência em populações humanas. Porém, possui maior taxa de desenvolver quadros graves, como cirrose e falência hepática do que o HBV.

Seu diagnóstico pode ser trabalhoso, uma vez que são comuns casos assintomáticos e não haver marcador sorológico confiável para identificá-lo no organismo durante esta fase.

Quadros graves da Hepatite C podem demorar a aparecer, podendo levar anos ou até mesmo décadas, o que dificulta ainda mais sua identificação precoce e prevenção.

Descoberto em 1989, o HCV também possui transmissão principalmente por via parenteral, mas também é possível por via sexual e perinatal, apesar de em menor nível.

Quadros de coinfecção por HIV e Hepatites B e C

Primeiramente, fica clara a sobreposição de vias transmissoras relacionadas a estes vírus. Não apenas isso, mas a alta incidência na população global e, principalmente, população vulnerável e marginalizada, faz com que casos de pacientes coinfectados com HIV e Hepatite B e/ou C seja comuns.

Dada a transmissão por via sexual e parenteral, principais relações entre os três, torna-se essencial o acompanhamento de pacientes infectados por HIV para os exames de HBV e HCV, e vice-versa.

Um estudo feito com pacientes do HC-UFPR, Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, através de análise de 93 exames dos infectados por HIV, nos revela dados sobre a coinfecção entres estes vírus. Créditos à pesquisadora Nayara Carvalho Polido Beloto.

Coinfecção HIV – HBV

Dentre os 93, testou-se 88 para soropositividade do vírus HBV. Destes, 18, ou 20%, apresentaram resultados positivos.

A principal complicação para portadores de ambos os vírus está no aumento das chances do desenvolvimento de casos graves associados ao HBV.

Além disso, mesmo após o desenvolvimento da imunidade ao HBV, quadros de imunossupressão, como os causados pelo HIV, podem provocar reativação da hepatite através das baixas cargas virais ainda presentes no organismo.

Coinfecção HIV – HCV

Respostas positivas para o marcador anti-HCV foram 79, ou 85%. Isso indica uma taxa muito elevada de coinfecção HIV – HCV.

Porém, é importante notar que nem todos tiveram a presença do vírus confirmada pelos testes de PCR. Destes 79, 57 apresentaram infecção ativa, o que ainda compõe uma taxa elevada.

Semelhantemente ao HBV, a associação do HCV ao HIV contribui para o desenvolvimento de quadros mais graves, dada a diminuição da resposta oferecida pelas células T CD4+.

Isso contribui para um desenvolvimento agravado de hepatocarcinomas e cirrose hepática.

Coinfecção HIV – HCV e HBV

Segundo o estudo, 6,6% dos pacientes examinados apresentaram contaminação por todos os três vírus investigados.

Todos os problemas associados às infecções podem ser observados nestes quadros também, como o desenvolvimento de cirrose e hepatocarcinomas, além de reinfecções devido à imunossupressão.

Considerações finais

Quando observamos a prevalência de tais vírus e como se sobrepõem, fica clara a necessidade de abordar o assunto.

Não apenas devido às características infecciosas do próprio vírus, mas também pelo fator comportamental humano e aspectos socioeconômicos e geográficos das infecções.

Dessa forma, é preciso desenvolver técnicas cada vez mais sensíveis para se abordar pacientes coinfectados com HIV e Hepatite B e/ou C e garantir o mais fiel diagnóstico e melhor tratamento possível em cada caso.

Caso se interesse ainda mais pelo assunto, não perca o III Simpósio HIV e Fígado, que acontecerá no dia 22/05. Confira a programação e participe conosco do evento!