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Perspectivas e desafios na imunização contra a malária

São Paulo, 14 de julho de 2021
 

A malária é uma doença que acompanha a humanidade desde que ela surgiu. Ela é profundamente inserida em nossa população e existem muitas perspectivas e desafios na imunização contra a malária.

Uma busca pela proteção das populações humanas contra doenças é um esforço hercúleo. Envolve décadas de pesquisas e investimentos, além de uma coordenação afinada entre governos e população. Hoje sabemos que a principal esperança contra a malária reside na vacinação. Porém, os obstáculos são grandes ainda.

Desafios da imunização contra malária

Na busca pela imunização da população contra uma doença, existem muitos desafios. Estes provêm de diferentes fontes – podem ser biológicos, sociais e comportamentais, por exemplo.

O combate à sua inoculação, feita por mosquitos fêmeas do gênero Anopheles, pode ser impedida, e este é um foco. É uma medida que surte efeitos e é de relativa fácil implementação. Controle de vetores é uma estratégia amplamente utilizada. Porém, sua maior dificuldade se encontra em aspectos socioeconômicos e biológicos.

Primeiro, populações que vivem em zonas de risco para a malária são aquelas mais pobres ou em áreas onde o poder público não chega. São moradores de zonas periféricas e marginalizadas, que não têm acesso a controle de zoonoses efetivo, ou populações tradicionais e afastadas de centros urbanos, que convivem com o mosquito naturalmente.

Por outro lado, o uso extensivo de inseticidas já leva a observação de mosquitos que desenvolveram resistência a estes. O uso de compostos cada vez mais tóxicos é um risco tanto para as pessoas como para o ambiente, e apenas causa uma corrida armamentista contra a evolução, numa re-encenação da teoria da Rainha Vermelha.

Para a malária ainda não existe uma vacina desenvolvida e utilizada em larga escala no mundo. Ainda assim, estudos são realizados há décadas e uma série de potenciais vacinas estão em variados estágios de testagem. No entanto, quando tratamos do combate à malária, alguns obstáculos específicos surgem.

Especificidade das vacinas

A malária é uma doença endêmica de várias regiões do mundo. Por acompanhar a espécie humana desde seu início, ela se espalhou com velocidade e facilidade pela população e, consequentemente, pelo planeta.

Os parasitas responsáveis evoluíram com nossa espécie, e hoje estão presentes em todas as regiões tropicais e subtropicais ocupadas por humanos. Ela é provocada pelas espécies Plasmodium vivax (P. vivax), Plasmodium falciparum (P. falciparum), Plasmodium ovale (P. ovale), Plasmodium malariae (P. malariae) e Plasmodium knowlesi (P. knowlesi).

Por mais que pertençam ao mesmo gênero (Plasmodium), cada parasita apresenta reações distintas aos diferentes imunizantes. Uma das vacinas mais promissoras atualmente em desenvolvimento é a RTS,S/AS01. Idealizada inicialmente pelo grupo que hoje é o GlaxoSmithKline, do Reino Unido, ela já está na fase III.

Esta vacina utiliza um mecanismo com antígenos de superfície do vírus da hepatite B, o HBsAg. Ela atua na fase pré-eritrocítica do ciclo do parasita, quando são liberados os merozoítos, que dura entre seis e dezesseis dias após a inoculação. A RTS,S, por exemplo, se mostra bastante eficaz contra o P. falciparum.

Alta diversidade antigênica

A elevada quantidade de parasitas causadores da malária são fruto de uma diversidade antigênica produzida ao longo da história evolutiva do gênero e das espécies. Através de mecanismos de recombinação gênica, gera-se polimorfismo alélicos que dificultam a aquisição de imunidade clínica.

Além disso, outro mecanismo existente nos parasitas é o de variação antigênica. Esta confere a ele a habilidade de variar as proteínas de superfície ao longo da infecção, variando seu fenótipo. Isso dificulta a ação de anticorpos e outros agentes e o consequente desenvolvimento de imunidade.

Dificuldades nos estudos

Por fim, um dos grandes desafios para a elaboração de vacinas está em seu desenvolvimento. Como vimos, a grande variedade de parasitas causadores faz com que potenciais imunizantes para um não tenham efeito significativo em outra espécie de Plasmodium.

Não apenas isso, mas dada a endemicidade da malária em vários lugares no planeta todo, os estudos com os diferentes parasitas são extremamente difíceis. Isso porque é preciso desenvolver técnicas para a criação in vivo de cada um deles, o que não existe atualmente. Estes obstáculos impedem uma pesquisa constante com as diferentes espécies.

Além disso, ainda se faz necessário o desenvolvimento de métodos alternativos de testagem. Uma vez que evita-se os testes em animais, para não causar sofrimento animal, algumas pesquisas encontram dificuldades em avançar.

Perspectivas para a imunização contra a malária

Apesar de todos os desafios e obstáculos, a pesquisa para formas de imunizar a população contra a malária avançam. Hoje já são conhecidos vários mecanismos de atuação para vacinas, que podem impedir o desenvolvimento da doença no organismo ou mesmo frear sua disseminação.

No entanto, algumas estratégias utilizam outros fatores juntamente aos imunizantes. Elas apresentam alternativas promissoras à simples aplicação de vacinas X ou Y. São, no final, a esperança final para uma imunização global contra a malária.

Imunidade naturalmente adquirida

Imunidade naturalmente adquirida, ou NAI, para a malária, é muito difícil de se desenvolver. Precisa-se de uma exposição repetida ao parasita no sangue para tal. Dessa forma, cria-se no organismo uma extensa biblioteca de anticorpos.

Mas ainda assim é possível simular esse efeito com o uso de vacinas, a partir da injeção de parasitas quimicamente atenuados e subunidades contra malária. Esta é uma forma de simular o NAI e, mais recentemente, vem sendo estudada com o uso principalmente de merozoítos.

Aplicação de múltiplas vacinas

O uso de diferentes imunizantes pode ser uma realidade para acabar com a disseminação da doença. A combinação de vacinas pré-eritrocitárias com as bloqueadoras de transmissão, por exemplo, tem mostrado uma boa sinergia para tal abordagem.

Estas estratégias em múltiplos estágios de desenvolvimento do parasita se mostram altamente válidas com o desenvolvimento de imunizantes que atuam em diferentes estágios do parasita.

Considerações finais

As vacinas têm se mostrado a principal e mais sólida esperança na imunização contra a malária. Apesar disso, seu desenvolvimento ainda corre a passos lento, porém constantes. Com o advento de tecnologias moleculares e imunológicas modernas, tem sido possível dar passos mais largos nessa direção.

Enquanto uma vacina não chega, resta aos profissionais da saúde estarem prontos para fazer o que tiver ao seu alcance no atendimento aos pacientes. Doenças endêmicas, como malária, são desafios diários e afetam intimamente a população. Não apenas a sua erradicação, mas a manutenção desse estado.

Conhecer o povo e seus desafios, assim como a doença em si, é algo que caminha de mãos dadas. Quanto mais se souber, melhor, pois informações salvam vidas.