Artigo

Análise sobre o papel do intestino na homeostase imunológica

São Paulo, 12 de julho de 2021
 

O conceito de homeostase imunológica refere-se ao sistema – regulado rigidamente – de contrapesos e freios fisiológicos do corpo, responsável por equipar o corpo com uma linha de defesa multifacetada contra invasões de patógenos estranhos e/ou o desenvolvimento de autoantígenos.

Nesse ínterim, a imunidade que é desempenhada pelo organismo se relaciona aos mecanismos inatos e, também, aos adaptativos. Dito de outra forma, este sistema é composto por células tipicamente imunológicas, bem como órgãos e tecidos de relevância imune.

Para que o sistema imunológico gere respostas que combatam vários tipos de antígenos, ele deve manter a homeostasia, sob pena de não ser capaz de suprimir respostas imunes exacerbadas.

Pensando nisso, apresentamos, ao longo deste artigo, os principais elementos que descrevem as funções do intestino na harmonização e, sobretudo, no equilíbrio dessas respostas imunes. Boa leitura!

As células do intestino

Segundo uma pesquisa recentemente publicada, há dados relativos às células imunológicas que indicam sua prevalência – na ordem de 80% – no trato intestinal. Aliás, as conclusões dos cientistas responsáveis pelo estudo indicam que o TGI (Trato Gastrointestinal) é de suma importância para a homeostasia concernente aos processos imunológicos.

Por exemplo, é imprescindível considerar o fato de que as estruturas intestinais acolhem as suas células e asseguram as respectivas responsabilidades imunológicas. Afinal, o epitélio intestinal compõe-se a partir de uma única camada, com células especializadas que, no entanto, se relacionam diretamente com o sistema imune.

A fim de garantir a homeostasia local, essa ligação permite respostas imunes mais eficazes, suprimindo as reações exacerbadas. Essa supressão (ou, mais propriamente, eliminação), associa-se frequentemente ao reconhecimento molecular que, embora sejam consideradas estranhas em um primeiro momento, não se referem a nenhuma forma de agente patológico.

De tal forma, o sistema imunológico, situado no Trato Gastrointestinal, mantém registros de memória capazes de coibir o desencadeamento de processos inflamatórios desnecessários.

A função da microbiota

Nos mamíferos, o intestino é colonizado por grandes comunidades microbianas, chamadas de “microbiomas”, que incluem fungos, vírus, bactérias, dentre outros. Nesse contexto, a homeostase intestinal é assegurada por meio da atuação desse ecossistema simbiótico.

Bem como a composição da microbiota intestinal, sua relação com o sistema imune também merece especial atenção, uma vez que apresenta variações segundo a faixa etária dos indivíduos.

De maneira idêntica, os hábitos alimentares representam outro fator importante, desencadeando processos inflamatórios que, por sua vez, podem ser influenciados, ainda, por fatores ambientais, estilo de vida, quantidade de irmãos, estilo de criação, tipos de alimentação, métodos de parto, gravidez etc.

De modo geral há, em relação às bactérias, 4 filos principais que colonizam o TGI humano, quais sejam, Actinobacteria, Proteobacteria, Firmicutes e Bacteroidetes, formando 98% de toda a microbiota intestinal.

Posteriormente, deve-se levar em consideração que quase toda a composição bacteriana intestinal (mais de 90%) considerada saudável é formada por Firmicutes e Bacteroidetes.

Resposta imune em condições de saúde decorrentes da disbiose

Disbiose intestinal consiste em um desequilíbrio na flora com a existência de alterações tanto na distribuição quanto na quantidade de bactérias no intestino. Em suma, pode gerar inflamações, levando à redução na capacidade intestinal em absorver nutrientes, resultando em deficiências nutricionais.

Por certo, um dos principais causadores da disbiose é uma alimentação rica em gordura, proteína ou com poucas fibras. Posto que ela pode ser causada, também, pelo estresse ou utilização de certos medicamentos, tais fatores não podem ser negligenciados.

Em contrapartida, as alterações na flora intestinal causam, em alguns casos, sintomas passageiros – tais como prisão de ventre, diarreia, azia, vômitos, gases ou náuseas. Quando ocorre por longos períodos e não é adequadamente tratada, a disbiose pode piorar, aumentando o risco de o indivíduo desenvolver a síndrome do intestino irritável, doença celíaca ou intolerância à lactose.

Ademais, o efeito barreira é a proteção imunológica mais importante fornecida pelo TGI, graças à existência da mucosa formada e aderente a todo o Trato Gastrointestinal.

Quando existe uma relação positiva entre o TGI e a microbiota, a condição é chamada de “eubiose”. Pelo contrário, quando a relação é maléfica, gerando patologias, a condição recebe o nome de “disbiose”.

Com a função de oferecer uma resposta imunológica para esta condição, o organismo ativa o mecanismo denominado “função imunomoduladora”. Assim, o tecido linfoide que se associa ao intestino é composto por células responsáveis, por um lado, pela imunoaceitação (perante bactérias benéficas) e, por outro, pelo mecanismo de resposta imunológica (na presença de agentes patogênicos).

Diagnóstico da disbiose

O diagnóstico requer, além da avaliação de sintomas, a solicitação do exame “Indican”. Este pode ser realizado a partir da análise de urina concentrada (pelo menos, por quatro horas) ou pela primeira da manhã.

Este exame analisa a quantidade da substância Indican, produzida pelo corpo mediante a alimentação e sua posterior liberação na urina. Eventualmente, a presença de quantidades pequenas indica normalidade.

Entretanto, quando existe desequilíbrio na flora intestinal, é possível confirmar o diagnóstico da disbiose intestinal. O médico poderá, inclusive, solicitar testes genéticos (o “microbioma intestinal”), no qual é identificado exatamente quais são as bactérias presentes junto à flora intestinal do paciente.

A realização desse exame demanda esfregar um cotonete (swab) na fazes, após sua eliminação, colocando o material recolhido em tubo que será enviado ou entregue ao laboratório encarregado pela análise.

Os resultados do exame contribuem para aperfeiçoar o diagnóstico e possibilitar uma melhor decisão médica quanto ao tipo de tratamento mais adequado. Não obstante, os nutricionistas podem utilizar esses resultados para a elaboração de planos alimentares personalizados.

Considerações finais

Cumpre ressaltar, por fim, que as relações entre microbiota e intestino são de suma importância para a manutenção e o correto funcionamento da homeostase, desde uma perspectiva da saúde humana.

Além disso, os mecanismos que regulam esse sistema apontam para o fato de que ter uma dieta baseada em probióticos e prebióticos favorecem as bactérias benéficas no estabelecimento de uma condição de eubiose.

A diversidade das células que atuam junto ao trato gastrointestinal confere a sua função imunomoduladora precisa e eficiente, por meio de sinalizações que ativam as células que podem neutralizar os agentes patológicos.

Os profissionais de saúde que se mantêm informados quanto à dinâmica da homeostase imunológica, certamente, atuam com mais eficiência, atendendo melhor os seus pacientes e, sobretudo, salvando vidas.