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Exercícios físicos podem ajudar indivíduos infectados pela COVID-19?

São Paulo, 8 de junho de 2021
 

De acordo com as diretrizes do American College of Sports Medicine (ACSM), praticar exercícios físicos regularmente melhora a resposta imunológica contra infecções, diminui a inflamação sistêmica e melhora marcadores imunológicos e inflamatórios de várias doenças. Mas, será que exercícios físicos podem ajudar indivíduos infectados pela COVID-19?

Para descobrir a resposta, o estudo “Efeitos do exercício físico na prevenção e atenuação dos sintomas e na reabilitação de indivíduos infectados por SARS-CoV-2” realizou uma revisão integrativa da literatura para analisar as evidências científicas mais atuais. Confira os resultados a seguir!

A importância dos exercícios físicos para o sistema imunológico

Segundo a ACSM, uma pessoa sedentária tem a aptidão cardiorrespiratória e função imune diminuída. Como resultado, ela fica mais suscetível a infecções (incluindo as virais) e ao desenvolvimento de outras doenças crônicas não transmissíveis (DCNT).

A falta de exercício físico também contribui para redução das atividades metabólicas e musculoesqueléticas, colaborando para o aumento excessivo de peso e acúmulo de gordura. Alguns autores sugerem que essa condição facilita uma maior expressão de ECA2 (Enzima Conversora de Angiotensina 2), o principal receptor do SARS-CoV-2, nas células pulmonares.

Por outro lado, quem pratica atividade física regular (pelo menos 150 minutos de exercício aeróbico moderado, ou 75 minutos de atividade intensa por semana) melhora a sua aptidão física. Como resultado, o seu sistema imunológico tem mais força para se proteger de doenças virais, como a COVID-19. Além disso, os marcadores imunológicos de algumas doenças são melhorados, pois a atividade física contribui para ação positiva das células T e retarda a imunossenescência.

Entretanto, é preciso tomar cuidado com a intensidade do exercício físico, pois o sistema imune reage de maneiras diferentes, podendo proteger o organismo ou torná-lo mais vulnerável.

Relação entre a intensidade do exercício e a vulnerabilidade a infecções

De maneira geral, praticar exageradamente exercícios físicos intensos aumenta o risco de contrair uma doença infectocontagiosa, pois eles causam uma ação imunossupressora prolongada, ou seja, de 3 a 72 horas.

Além de reduzir a produção de imunoglobulinas, exercícios de alta intensidade afetam a atividade dos linfócitos T, dos neutrófilos e das células NK (natural killer). Por isso, além de aumentar o risco de contrair uma doença, realizar atividades físicas intensas antes ou durante uma infecção sistêmica pode agravar o quadro da doença e até levar à morte.

Em contrapartida, praticar exercícios de intensidade moderada estimula a imunidade das células, uma vez que induz padrão de citocinas, estimula a ação das células NK, dos linfócitos T e a produção de imunoglobulina, as células principais para ativação e regulação da imunidade natural e da adaptativa. Além disso, esse tipo de atividade ajuda a reduzir o Fator de Necrose Tumoral Alfa (TNF-α) e melhora os biomarcadores imunológicos.

Exercício físico moderado pode ajudar a prevenir doenças infecciosas

De fato, fazer exercício físico de intensidade moderada, mesmo que por um curto período, traz benefícios duradouros para o sistema imunológico. Como a atividade física aumenta a concentração das principais células de defesa do organismo, ela melhora a saúde como um todo, ajudando o organismo a melhorar sua resposta viral e aumentar a imunovigilância.

Alguns dos fatores que justificam essa melhora são:

  • Diminuição da inflamação crônica devido ao aumento do número de citocinas anti-inflamatórias;
  • Aumento da função dos neutrófilos, monócitos, macrófagos e linfócitos T;
  • Elevação de imunoglobulinas, especialmente IgA;
  • Regulação do nível de Proteína C-reativa (PCR).

A prática regular de exercício físico também beneficia o sistema cardiovascular, pois atua diretamente no sistema renina-angiotensina (SRA), que é o responsável principalmente por regular a pressão arterial, o balanço hídrico e o sódio. Além disso, o SRA também estimula as respostas anti-inflamatórias, protege contra a perda muscular e melhora os marcadores de inflamação em pacientes com DCNT.

Outro benefício da atividade física de resistência ou aeróbica moderada é que ela pode potencializar a resposta imune adaptativa para a vacinação. Isso acontece porque a prática regular de exercício pode criar um efeito de soma e melhorar o sistema de defesa do organismo. Além disso, o exercício físico eleva a atividade da proteína que controla a produção de citocinas pró-inflamatórias em células imunes inatas, as sirtuínas.

Mas, será que os exercícios físicos podem ajudar indivíduos infectados pela COVID-19?

Exercícios físicos podem ajudar indivíduos infectados pela COVID-19?

Quando uma pessoa se infecta com SARS-CoV-2, a resposta do organismo envolve tanto a imunidade adaptativa como a natural. Porém, geralmente pacientes com DCNT têm mais chances de desenvolver a forma grave da COVID-19, independente da sua idade.

Entretanto, como vimos, praticar exercícios físicos regularmente melhora a resposta antiinflamatória do organismo devido à modulação de SRA. Logo, podemos concluir que a atividade física pode ajudar na prevenção da COVID-19, reduzir a gravidade da doença e amenizar os sintomas, inclusive em indivíduos com doenças crônicas não transmissíveis.

Um estudo realizado em 2020 por Brawner e outros autores sugeriu que, quanto maior a aptidão física de um indivíduo, menores serão as chances dele contrair a forma grave da doença ou precisar de internação médica.

Essa sugestão foi baseada no fato de que a capacidade cardiorrespiratória reflete na função de diversos órgãos. Assim, ela interfere diretamente na saúde geral do indivíduo e na eficácia da resposta do corpo a fatores de estresse externos e internos.

Outro estudo de 2020, dos autores Steelman e Woods, também sugeriu que a prática regular de exercícios físicos moderados ajuda o organismo a se proteger da tempestade de citocinas causada pela COVID-19, consequentemente diminuindo o excesso de respostas inflamatórias.

Além disso, outros autores também já demonstraram, por meio de estudos clínicos que realizar atividades aeróbicas de intensidade moderada pelo menos 3 vezes por semana, durante 45 a 60 minutos, aumenta a função leucócita e atividade das células NK, revertendo a linfocitopenia em indivíduos com COVID-19.

Benefícios do exercício físico durante e após a recuperação

No caso de pessoas com COVID-19, a atividade física também pode ser benéfica, pois ajuda a fortalecer os músculos respiratórios relacionados ao aumento da carga respiratória. Porém, o acompanhamento profissional é fundamental para restabelecer a função pulmonar.

Por exemplo, no caso de pacientes que precisam fazer um programa de reabilitação depois de se recuperarem da infecção pelo vírus SARS-CoV-2, é necessário iniciar exercícios de baixa intensidade e monitorar continuamente a oxigenação e a fadiga. Semelhantemente, indivíduos que ainda apresentam sintomas, como falta de ar, tosse ou fadiga, devem fazer uma atividade física leve.

Ademais, recomenda-se que pessoas que apresentam sintomas leves e moderados de COVID-19 realizem alongamentos e exercícios de resistência de baixa intensidade antes de um treino aeróbico. Já no caso de indivíduos assintomáticos, é possível realizar a atividade física normalmente, avaliando sempre a ocorrência de sintomas.