Artigo

Entendendo o ressurgimento e o controle do sarampo no Brasil

São Paulo, 1 de junho de 2021
 

O Brasil, infelizmente, alcançou a triste titularidade de epicentro da pandemia do novo Coronavírus. Com o recente (e há muito previsto) colapso de grande parte da capacidade de atendimento médico, em muitos municípios os profissionais da saúde estão esgotados e trabalhando além do limite. O sarampo no Brasil é um assunto que acabou ficando para segundo plano, como muitos outros. Mas os números demonstram que a hora de se preocupar já chegou faz tempo.

Medidas restritivas de contato e deslocamento estão em vigor desde o “início” da pandemia, ou seja, de quando passou a um enfrentamento direto, em março do ano passado.

Estas servem não apenas para minimizar a disseminação do Coronavírus, mas inclusive para a prevenção de casualidades que levem a novas ocorrências hospitalares, como acidentes. Assim, o trabalho de precaução e prevenção andam juntos.

O quadro clínico brasileiro é gravíssimo. Tem suscitado debates em todo o mundo, devido às proporções que a pandemia atingiu no país, pelos números de infectados e mortos.

É explícita a inércia e incapacidade administrativa para dar conta da prevenção – além da escandalosa politização do assunto – e conter o vírus, aplicando a vacinação, recentemente iniciada, a conta-gotas.

Sarampo e contágio

A causa do sarampo é um vírus RNA altamente transmissível. Estima-se que um infectado possa transmitir o vírus para um fator de 12 a 18 pessoas, além de ter um período de transmissibilidade mínimo de 10 dias: 6 dias antes da aparição das erupções sobre a pele e 4 dias após.

Números do sarampo no Brasil e no mundo

No primeiro trimestre de 2019, o sarampo teve um crescimento acentuado, uma marca de 300% comparada ao mesmo período do ano anterior. Os registros atingiram 112.163 casos de sarampo por 170 países até o fim de março, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Com o número de mortes superando a marca de 200 mil em 2019, o clima de controle veio abaixo.

Em junho de 2020, no Brasil, saiu um Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, relatando que havia surto nas 5 regiões da Federação, com 3629 casos confirmados. Houve confirmação laboratorial em seis estados da região Nordeste, cinco da região Nortee e três Estados em cada uma das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

As amostras correspondem às semanas epidemiológicas 1 e 21 – de 29 de dezembro de 2019 a 23 de maio de 2020 –, havendo ainda, além dos casos confirmados, 3.086 em investigação.

Variante do vírus

O genótipo D8 é o que se espalhou pelo Brasil, pela Europa e países latino-americanos como Venezuela, Colômbia e outros. Até então, estava tecnicamente controlado nas Américas. O Brasil obteve certificação de erradicação do sarampo, retirada ao final de 2018 devido aos novos casos.

Por onde anda o vírus no país?

A cobertura vacinal abaixo de 95% não foi suficiente para bloquear as novas entradas do vírus. Estima-se que tenha havido contaminação pela entrada de turistas propensos a desenvolver o vírus, a partir da região Norte, percorrido a região Sudeste, se alojado com força na grande São Paulo e esteja se espalhando por todo o país.

Para que se atinja a “imunidade de rabanho”, é necessário atingir a marca de 95% de cobertura vacinal. Mas isto é apenas mais um marcador de segurança, que não garante erradicação permanente.

Apesar da vacina ser o método mais eficaz contra o sarampo, ainda existe muita desinformação e resistência à vacina.

Muitas pessoas (e alguns grupos religiosos e políticos) preferem focar em raros casos de efeitos colaterais, suspeitas e mitos, optando deliberadamente por não fazer parte do grupo de vacinados. Ou seja, é parte da campanha de vacinação o convencimento da população, além de logística, recursos, pesquisas, certificações etc.

Vacinas

As duas doses da vacina contra sarampo ministradas pelo Governo Federal ainda previnem outros males.

A primeira atua na prevenção de caxumba e rubéola, além do sarampo. É receitada para os 12 meses de idade da criança (grupo mais suscetível ao contágio).

A segunda dose da vacina previne também a varicela, além dos anteriormente citados. Esta se aplica aos 15 meses de idade.

Profissionais da saúde também devem se submeter à vacinação, para o caso de não terem se vacinado após os 12 meses de idade.

Ações de prevenção e bloqueio

1250 doses de vacina foram aplicadas preventivamente em um ato de vacinação de bloqueio, nos profissionais e estudantes da UNIFESP, em junho de 2019, devido a uma suspeita de sarampo. Após 30 dias, nenhum caso extra se confirmou. Como doença de notificação compulsória, o sarampo deve ser monitorado rigorosamente.

Se tal ação, entre outros exemplos notórios, fizesse parte do conjunto de políticas e administração para o macro, provavelmente teríamos menos sustos e melhores números.

A cobertura vacinal, a nível global, está entre 84 e 85%. A meta de manter-se acima de 95% é complicada, pois nem sempre as políticas públicas de cada país se alinham com as diretrizes de saúde da OMS. É preciso retomar o controle em sintonia com o combate à COVID-19.

Muitas famílias optaram por suspenderem ou “furarem” outras vacinações, como a meningite, como demonstrado em pesquisa recente.  Muitos líderes de família ficam confusos em optar por respeitar o lockdown e cumprir outras orientações de saúde.

A infecção intra-hospitalar é outra ameaça que se agrava com as lotações do sistema de saúde. O paciente infectado com sarampo deve se manter em quarentena, estando tal demanda completamente saturada no momento atual.

Portanto, a luta titânica contra o Coronavírus não deve desmobilizar o setor epidemiológico tão logo a maior batalha esteja superada. Ainda há muito o que se reconstruir e reinventar em termos de práticas, políticas e compreensão das doenças que assolam o mundo.

Considerações finais

“Antes que houvesse uma crise de coronavírus, o mundo estava lutando contra uma crise de sarampo e ela não foi embora”, pronunciou Henrietta Fore, diretora executiva do UNICEF.

A tecnologia não nos adianta muito se não obtivermos um atestado de consciência e responsabilidade permanente, pois a prática preventiva contra os vírus é tão cotidiana quanto o trabalho ou qualquer outra prática.

Se não seguirmos o caminho da erradicação, com políticas globais e rigorosas, resta-nos o caminho do relaxamento e do eterno “correr atrás do prejuízo”.

As autoridades devem sair do estado de urgência e evitar normalizar a aceitação, como se houvesse um inimigo oculto e eterno. Os resultados são possíveis e já foram alcançados há pouco tempo, com menores dados e recursos tecnológicos.

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