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Doença Respiratória Ocupacional: Pneumonite de Hipersensibilidade

São Paulo, 28 de junho de 2021
 

Uma doença respiratória ocupacional é aquela que afeta o sistema respiratório e tem como origem a ocupação laboral do paciente. Portanto, caracteriza-se como uma doença do trabalho.

Estas doenças podem ser provenientes de condições genéticas, mas são provocadas principalmente pelas condições ambientais produzidas pela sua ocupação que favorecem seu desenvolvimento nos pacientes.

O que é a Pneumonite de Hipersensibilidade?

Também conhecida como Alveolite Extrínseca Alérgica, a Pneumonite de Hipersensibilidade é uma doença pulmonar intersticial caracterizada pelo distúrbio inflamatório pulmonar e imunológico.

Esta doença é provocada pela inalação e sensibilização repetida de partículas agentes por um indivíduo suscetível. Tais partículas são usualmente orgânicas, microorganismos como bactérias, fungos e amebas, proteína animal e substâncias de baixo peso molecular.

No entanto, nem sempre é fácil identificar o antígeno causador da Pneumonite de Hipersensibilidade. Uma vez que podem ser diversos os causadores, e outros fatores como temperatura e umidade também influenciarem seu aparecimento, mesmo após diagnóstico essa identificação ainda é difícil.

De toda forma, em cerca de 75% dos casos, os antígenos encontrados são provenientes da agricultura, aves e água contaminada.

A Pneumonite de Hipersensibilidade apresenta uma reação de hipersensibilidade de tipo IV. A exposição prolongada ao antígeno provoca alveolite neutrofílica e mononuclear, seguida de infiltração linfocítica intersticial e reação granulomatosa.

Quando não tratada em tempo hábil, e mantida a exposição, uma fibrose e obliteração bronquiolar podem se desenvolver.

Tipos de Pneumonite de Hipersensibilidade

Aguda

A forma aguda da doença acomete pacientes já sensibilizados e que sofrem exposição aos antígenos de forma intensa e em altos níveis.

Sintomas comuns são a febre, calafrios, tosse, apertos bilaterais no tórax e dispneia após a exposição. Anorexia, vômitos e náuseas também são relatados.

Crônica

Por outro lado, a Pneumonite de Hipersensibilidade crônica é provocada pela exposição por tempo prolongado aos antígenos em baixa concentração.

Essa forma se manifesta principalmente como dispneia de esforço ao longo de meses a anos, tosse produtiva, fadiga e perda ponderal. Quando avançada, ela provoca sinais e sintomas de insuficiência cardíaca direita e respiratória.

Subaguda

Já a Pneumonite de Hipersensibilidade subaguda é uma forma intermediária entre as duas anteriores, podendo manifestar sintomas de ambas ao longo do tempo.

Fatores Etiológicos

Se tratando de fatores etiológicos, o tabagismo não se mostra como um fator causador. Apesar de ainda incerto, provavelmente isto é devido à reduzida ativação de macrófagos e a proliferação de linfócitos provocada pela nicotina.

Portanto, a resposta imunológica no pulmão é menor aos antígenos. No entanto, quando já instalada no paciente, a Pneumonite de Hipersensibilidade é agravada pelo hábito do fumo.

Pacientes com asma e alergias não apresentam predisposição para o desenvolvimento da doença. A presença de precipitinas circulantes também não parece influenciar em seu aparecimento.

Logo, é possível compreender a estreita relação entre a Pneumonite de Hipersensibilidade e o estilo de vida e ocupacional do paciente, independente de outros fatores pré-existentes.

Tratamento

Trata-se a Pneumonite de Hipersensibilidade aguda ou subaguda com o uso de corticóides, geralmente a prednisona 60 mg VO por uma ou duas semanas e uso diário. Reduz-se para 20 mg pelas próximas duas a quatro semanas, com redução gradual ao longo delas e mediante acompanhamento.

Já para os casos crônicos, o mais utilizado é prednisona 30 ou 40 mg com redução gradual. Neste tratamento a longo prazo, alguns pacientes podem precisar de agentes poupadores de corticoides, como o micofenolato de mofetila e a azatioprina.

Pneumonite de Hipersensibilidade como doença respiratória ocupacional

Como uma doença relacionada com a exposição a antígenos provocadores, a Pneumonite de Hipersensibilidade se desenvolve comumente em atividades que expõem os trabalhadores a tais condições.

As ocupações relacionadas são trabalhadores rurais expostos a feno, palha e ração animal; trabalhadores de carga e descarga de grãos e bagaço de cana; cuidadores de aves; fabricantes de queijo; trabalhadores da indústria química; e trabalhadores em ambientes fechados como escritórios e estúdios.

Estas e outras atividades similares expõem trabalhadores aos antígenos causadores, principalmente fungos e bactérias e outros agentes orgânicos que favorecem a proliferação destes.

Além disso, por serem atividades contínuas em muitos casos, o desenvolvimento de quadros crônicos é favorecido, dificultando o diagnóstico precoce e o tratamento.

Para funcionários de escritório e atividade afins, que constantemente entram em contato com arquivos em papel velhos e mal acondicionados, a exposição a fungos que se alimentam dos nutrientes do papel e se dispersam no ar podem provocar a Pneumonite de Hipersensibilidade.

Por outro lado, na população rural, há a exposição a microorganismos e outros antígenos, como bactérias actinomicetos termofílicos. Dados para a Europa mostram a doença com uma prevalência de 4 a 13% na população, sendo mais presente em trabalhadores rurais.

Já para os Estados Unidos, estudos feitos em comunidades agrícolas diversas mostram uma presença entre 4,3 e até 20% na população agrícola.

Como prevenir uma doença respiratória ocupacional

Sem dúvida, a principal forma de prevenção de doenças ocupacionais, como um todo, passa pela capacitação de funcionários e a disponibilidade correta de equipamentos de proteção individuais e coletivos (EPIs e EPCs).

Além disso, boas condições de trabalho, como áreas amplas e arejadas, equipamentos e materiais limpos e em bom estado são indispensáveis para garantir o bem-estar e evitar exposição aos antígenos.

Deve ser feita constante avaliação nas zonas em busca da presença de tais antígenos e seu controle de forma adequada por equipes especializadas.

Portanto, é de extrema importância que empresas, órgão públicos e outros contratantes cumpram a obrigação legal de garantir ambientes confortáveis para funcionários.

Por fim, o diagnóstico precoce é essencial nos casos de Pneumonite de Hipersensibilidade. Isso porque, uma vez interrompida a exposição ao antígeno, a recuperação é rápida e simples com o tratamento adequado, e mesmo de forma natural.

Considerações finais

A Pneumonite de Hipersensibilidade é uma patologia comum em trabalhadores rurais, e de outras funções, que são expostos a agentes orgânicos, como criadores de animais e trabalhadores em arquivos de documentos.

Apesar de seu fácil tratamento, ignorar os quadros pode resultar em graves comprometimentos pulmonares.

Portanto, é indispensável o seu conhecimento e a identificação dos grupos suscetíveis para garantir um diagnóstico certeiro e eliminar as condições que favorecem seu desenvolvimento e agravamento.