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Desnutrição energético-proteica primária em crianças e suas nuances

São Paulo, 22 de junho de 2021
 

A desnutrição energético-proteica primária em crianças ou infantil, também conhecida como DEP, é uma doença que afeta a parcela da população mais desfavorecida economicamente.

Portanto, crianças que nasceram em famílias de baixa renda estão mais sujeitas a esse problema porque, em suas casas, alimentos com um valor nutritivo adequado para suas dietas não estão presentes. Assim sendo, trata-se de uma questão de saúde pública altamente relevante.

Características da desnutrição energético-proteica primária

Etiologia

Em linhas gerais, a desnutrição energético-proteica primária em crianças é a insuficiência de alimentos nutritivos na infância.

Esse problema ocorre por dois motivos principais: a situação de pobreza extrema, mencionada mais acima e que configura DEP primária; e quadros clínicos específicos em que a criança não consegue absorver nutrientes, o que configura DEP secundária.

Contudo, no segundo caso, a DEP não tem ligação com a ausência de alimentos nutritivos na dieta dos indivíduos.

Formas clínicas

Há duas formas de DEP infantil: o marasmo e o Kwashiorkor. Elas se distinguem pelo modo como afetam o organismo da criança, seja pelo déficit nutricional, seja pelo que o problema acarreta.

No caso do marasmo, observa-se um maior déficit de calorias e nutrientes. Contudo, por outro lado, o quadro Kwashiorkor se configura principalmente pela falta de proteínas. Porque as deficiências nutricionais são diferentes, o que essas formas clínicas acarretam também difere.

Os quadros de marasmo resultam em desidratação e na perda excessiva de:

  • Peso;
  • Gordura subcutânea;
  • Músculos.

Por sua vez, crianças que apresentam Kwashiorkor sofrem uma distensão abdominal. O que ocorre aqui é que, nesse caso, as membranas celulares ficam enfraquecidas e retêm mais líquido, aumentando o fluxo de água. Assim sendo, os corpos das crianças começam a apresentar edemas.

Como a DEP afeta as crianças?

A desnutrição energético-proteica primária em crianças tem várias consequências graves, principalmente se analisarmos a doença de modo sistemático.

Alterações metabólicas compensatórias

Uma consequência marcante da DEP infantil é a adaptação metabólica que o corpo faz para sobreviver mesmo em um estado em que a ingestão calórica é muito baixa. Portanto, observa-se uma consequência negativa para o sistema endócrino infantil. Algumas dessas alterações significativas são:

  • Aumento dos níveis plasmáticos de Cortisol, Paratormônio, Glucagon e GH;
  • Diminuição dos níveis de Insulina, Calcitonina e IGF-1.

Reações imunopatológicas e imunodeficiências

A DEP infantil desencadeia reações imunopatológicas e imunodeficiências na criança, pois prejudica órgãos que fazem parte do sistema responsável por fazer a hematopoiese. Portanto, afeta negativamente os órgãos responsáveis pela produção de células sanguíneas, como a medula óssea e os órgãos linfoides.

Por exemplo, afetando o timo e a medula óssea, a DEP limita a síntese e a maturação das células linfoides. Como essas células são responsáveis por respostas imunológicas eficazes a doenças, as imunodeficiências são consequências esperadas em crianças desnutridas.

Comprometimento do sistema neurológico

Além dos problemas decorrentes já citados, a desnutrição energético-proteica primária em crianças também compromete o sistema neurológico das mesmas. Há estudos na literatura que apontam para alterações robustas no formato do cérebro. Assim sendo, essas mudanças envolvem a redução cerebral em termos de:

  • Tamanho;
  • Peso;
  • Volume;
  • Quantidade de mielina;
  • Número de células.

Desaceleração do desenvolvimento infantil

Por fim, uma última consequência é observada em casos de DEP infantil, que é a desaceleração de seu desenvolvimento. Nesse caso, o sistema afetado é o locomotor, uma vez que os estágios mais graves da doença atingem os tecidos muscular e ósseo do corpo da criança.

Dessa forma, em um estado de desnutrição crônica, o corpo diminui os gastos energéticos das atividades metabólicas.

A relação íntima entre medicina e sociedade

A desnutrição energético-proteica primária em crianças é uma questão que deve estar em pauta nos debates sobre a saúde pública no Brasil e no mundo. Isso porque as raízes de sua etiologia podem ser reduzidas por meio de políticas públicas que cuidem da dieta das crianças brasileiras de baixa renda. Portanto, doenças como a DEP revelam quão tênue é a relação entre medicina e sociedade.

A importância do acompanhamento de crianças desnutridas por unidades de saúde

No caso de DEP infantil, tanto o tratamento quanto a prevenção da doença podem ser aprimorados por meio do investimento em saúde pública. Essa é uma afirmação que se comprova na medida em que se observa uma correlação entre a redução da prevalência da desnutrição infantil no Brasil e a instituição de programas governamentais voltados para prevenção da saúde das crianças.

Alguns dos programas em questão estão sob responsabilidade do governo federal:

  • Agenda para Intensificação da Atenção Nutricional à Desnutrição Infantil (ANDI): programa presente em comunidades com índices de DEP iguais ou superiores a 10%;
  • Programa Saúde na Escola (PSE): programa que incentiva a alimentação saudável, combatendo a obesidade e a desnutrição das crianças;
  • NutriSUS: foco na fortificação da alimentação das crianças em creches que o PSE cobre.

Além disso, investimentos em equipes como as da Estratégia Saúde da Família (ESF) e do Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB) também são responsáveis por frear o potencial destrutivo que tem a DEP infantil no Brasil.

É importante destacar que além de incentivar programas com atuação nas creches e escolas brasileiras, é importante investir em programas de fiscalização que investiguem e analisem a alimentação das crianças quando elas não estão em casa.

Programas com visitas domiciliares garantem que o desenvolvimento e a dieta das crianças sejam monitorados. Essa vigilância garante tanto a prevenção quanto a eficácia do tratamento pós-diagnóstico. Portanto, fica evidente o quanto é importante investir e discutir DEP infantil como uma prioridade de saúde pública.

Considerações finais

Para concluir, vale lembrar que a desnutrição energético-proteica primária em crianças faz parte de um ciclo no qual a saúde pública pode interferir. A etiologia da doença está na insuficiência nutricional que se dá pela falta de uma alimentação adequada.

Assim, uma vez que há uma parcela expressiva da população brasileira vivendo em condições de fome e miséria, espera-se encontrar famílias em que vivem crianças com DEP. Portanto, é necessário que as políticas do país intervenham em favor das crianças nesse ciclo, garantindo que elas recebam uma alimentação adequada em casa e nas escolas.

Dessa forma, o índice de incidência da desnutrição energético-proteica primária em crianças cairá e os tratamentos serão mais efetivos. Consequentemente, evitam-se os óbitos e observa-se uma redução da taxa de mortalidade infantil no Brasil.