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COVID altera o exame de sangue? Estudos sugerem que sim

São Paulo, 8 de março de 2021
 

Recentemente, alguns estudos mostraram que a COVID altera o exame de sangue, assim como acontece em outros tipos de infecções virais.

De acordo com o professor do Departamento de Propedêutica Complementar da Faculdade de Medicina UFMG, Leonardo Vasconcellos, embora essas alterações não formem um diagnóstico para a COVID-19, elas são importantes para monitorar o desenvolvimento da doença.

Como a COVID altera o exame de sangue?

Um estudo chamado “A novel haemocytometric COVID-19 prognostic score developed and validated in an observational multicentre European hospital-based study”, publicado no periódico online eLife, avaliou alguns parâmetros de um hemograma que estão relacionados com a maior probabilidade de pacientes com COVID-19 contraírem a forma grave da doença.

Os pesquisadores criaram um sistema de pontuação baseado em 1.587 hemogramas completos de 923 adultos. Paralelamente, eles validaram esse algoritmo com 2017 mensurações de hemogramas de 202 pessoas e os resultados foram compatíveis.

De acordo com o Dr. Andre van der Ven, autor sênior do estudo, o sistema de pontuação apresentou assertividade de um pouco maior que 70% ao prever o desenvolvimento da forma grave de COVID-19. Conforme ele disse ao Medscape, basicamente, quanto mais acentuadas eram as alterações nos exames de sangue, maior era a chance de uma pessoa precisar de cuidados intensivos.

Entenda as alterações laboratoriais em cada fase da infecção de COVID-19

Recentemente, um artigo publicado na Revista Brasileira de Análises Clínicas relacionou as principais alterações laboratoriais dos pacientes infectados pela COVID-19 a cada uma das quatro fases do curso da doença. Confira a seguir.

Fase 1

A primeira fase da infecção de Sars-CoV-2 é a primeira semana de surgimentos dos sintomas. Nessa etapa, a COVID altera o exame de sangue de forma leve.

Em um hemograma é possível observar que os linfócitos, que são os principais atacados pela infecção, tendem a diminuir. Porém, os exames de coagulograma, equilíbrio ácido-base, eletrólitos e bioquímicos não mostram alterações relevantes.

Fase 2

Na segunda fase, ou seja, na segunda semana de evolução dos sintomas, a queda de linfócitos pode aparecer de forma mais intensa no hemograma, o que pode indicar um prognóstico ruim. Essa queda pode estar relacionada com uma infecção bacteriana.

Nessa etapa, alguns marcadores de fase aguda começam aparecer em resposta à infecção. Por exemplo, a proteína C-reativa reconhece e elimina substâncias autógenas liberadas por tecidos lesionados. Embora essa proteína não seja muito específica, ela é a mais sensível entre os marcadores de fase aguda.

Além disso, alguns pacientes na fase dois de infecção por Sars-CoV-2 também apresentam queda de albumina devido ao aumento da permeabilidade dos capilares sanguíneos decorrentes do processo inflamatório. Por isso, geralmente os exames de sangue que são realizados na urgência e emergência incluem os níveis da proteína C-reativa e de albumina.

Também é possível observar que a COVID altera o exame de sangue em relação aos níveis de Dímero-D, pois esse tipo de vírus prejudica a estrutura eritrocitária e da hemoglobina, o que retira os átomos de ferro necessários para o transporte de oxigênio.

Ao mesmo tempo, a infecção promove um excesso de produção de trombina, uma proteína essencial para o processo de coagulação do sangue. Por isso, é comum que os pacientes com COVID-19 na fase dois apresentem uma pequena queda de saturação de oxigênio (5% a 7%).

Geralmente, 80% dos pacientes que apresentam esses tipos de alterações no exame de sangue conseguem se recuperar bem.

Fase 3

Os 20% dos pacientes que evoluem para a fase três da doença apresentam alterações mais agudas nos exames de sangue. Isso acontece porque essa etapa tem um desenvolvimento mais acelerado.

A primeira alteração no exame de sangue que aparece nos pacientes da fase três é a queda da saturação de oxigênio no sangue, que pode variar de 8% a 10%. Então, essa crescente falta de oxigenação das células faz com que os músculos produzam mais LDH (lactato desidrogenase) e lactato.

O LDH possui sete isoenzimas, que estão distribuídas pelo organismo. Contudo, a isoenzima 3 é a mais importante para analisar nos casos de COVID-19, pois ela está presente em altas concentrações nos pulmões, nas plaquetas, no baço, nos leucócitos e nos linfonodos.

A proteína C-reativa e o Dímero-D também alcançam níveis críticos na fase três da infecção, podendo atingir valores seis vezes maiores do que a referência. Além disso, a COVID também diminui o Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (PTT), o que resulta no baixo nível de plaquetas.

Por fim, a queda no nível de linfócitos no sangue também se agrava durante a fase três, seguido do aumento de leucócitos e neutrófilos. Embora não seja uma regra, essas condições também podem indicar uma infecção bacteriana associada.

Fase 4

Na quarta e mais grave fase da COVID-19, é comum que os pacientes apresentem insuficiência respiratória. Assim, é possível observar no exame de sangue uma queda de 10% a 20% da saturação de oxigênio em comparação com os valores recomendados.

Além disso, a infecção por Sars-CoV-2 também aumenta a concentração de gás carbônico e lactato na corrente sanguínea, que em conjunto com a diminuição do pH causa uma acidose respiratória e metabólica.

Em resultado da falta grave de oxigênio nos tecidos, os órgãos e sistemas começam a ser prejudicados. Assim, a COVID eleva as concentrações de ureia, AST (aspartato aminotransferase) e ALT (alanina aminotransferase) no sangue.

Ao mesmo tempo, os pacientes na fase quatro da infecção apresentam alterações muito mais críticas no coagulograma. Isso acontece porque a febre alta e a baixa pressão arterial reduzem mais ainda o tempo de coagulação sanguínea.

Alguns pacientes também podem apresentar a Síndrome Hemofagocítica, que pode ser observada nos exames de sangue pela diminuição do número de hemácias e aumento do LDH e do potássio.

Então, quando um paciente permanece nesse quadro por mais de três dias, pode-se observar alteração nos marcadores cardíacos, como CPK total, Troponina I, CPK-MB atividade, Mioglobina e CPK-MB massa.

Além disso, a COVID altera as concentrações das seguintes substâncias no exame de sangue:

  • Alfa1-antitripsina;
  • Alfa1-glicoproteína ácida;
  • Alfa2-macro­globulina;
  • Haptoglobina;
  • Hemopexina;
  • Transferrina;
  • Inter­leucina 6;
  • Fator de necrose tumoral alfa.

Sem dúvida, embora a forma como a COVID altera o exame de sangue não seja suficiente para diagnosticar a doenças, ela pode ajudar a entender como o corpo está reagindo à infecção.