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A importância do combate à doença de Chagas e seus vetores

São Paulo, 27 de maio de 2021
 

O combate à doença de Chagas tem sido de suma importância, principalmente, para moradores da zona rural do Rio Grande do Sul. Embora negligenciada entre os anos de 2008 e 2017, resultando em 80,3% do óbito no país, o combate aos vetores de Chagas se mantém massivo.

Isso porque pesquisadores, tecnólogos, além dos responsáveis pelo Programa de Controle da Doença de Chagas (PCDCh), firmaram parceria para elaborar um calendário ilustrativo sobre o combate à doença de Chagas.

O calendário, de linguagem simples e clara, é alinhado à participação comunitária no controle da praga, conhecida pelo nome de “barbeiro”. Vamos entender como funciona esse controle e a importância de continuar o combate à moléstia de Chagas.

O combate à doença de Chagas ao longo das décadas

A doença de Chagas, também chamada de Tripanossomíase americana, tem como principal forma de combate a campanha de controle vetorial no ambiente familiar. Desde 1950, quando iniciou a campanha, até a metade da década de  80, quando alcançou toda a área endêmica, graças ao Programa de Controle da Doença de Chagas, o combate era intenso.

No entanto, apesar de programas educacionais e a participação da comunidade, que notificava a presença de insetos suspeitos de serem triatomíneos, a transmissão da doença de Chagas se manteve no Rio Grande do Sul.

Além disso, mesmo o agente protozoário Trypanosoma cruzi, descoberto por Carlos Chagas, ser causa da enfermidade, existe um vetor para o mal de Chagas, chamado de Triatoma infestans, o famoso “barbeiro”, que se faz presente no Sul do Brasil e na Bahia.

Os locais de maiores causas de infestação pelo “barbeiro” se concentram nas zonas rurais dessas localidades, principalmente na população que vive em precárias condições de moradia. Sendo assim, o Rio Grande do Sul ainda é considerado endêmico para doença de Chagas.

Como é o enfrentamento à doença de Chagas no Rio Grande do Sul?

Sendo um estado endêmico para a doença de Chagas, o combate às infecções parasitárias dessa moléstia mantém as características originais da campanha. Isto é,  estimulando a população a reconhecer o inseto transmissor de Chagas e ajudando no controle de infecções dessa doença e seus vetores.

Mas, para que o combate à doença de Chagas pudesse ser assertivo, era necessário que a campanha tivesse a compreensão de todos os moradores, de localidades pobres ou não.

Ainda que toda a informação fosse feita por meio de palestras, vídeos, encontros com a comunidade, e outros materiais didáticos, fazia-se necessário a elaboração de um material que alcançasse toda a população, em uma só linguagem.

Por isso, foi lançado o Calendário Doença de Chagas, com linguagem simples, objetiva e de fácil compreensão entre adultos e crianças. A ideia de um calendário também surgiu ao considerar os costumes dos moradores da região, que utilizam calendários para lembrar de atividades e compromissos.

Alguns calendários usados por esses habitantes também são ilustrativos. Assim, a produção de um material didático de combate à doença de Chagas seria melhor recebido, além de útil para ser consultado o ano todo.

Dessa forma, é possível ajudar a combater a doença de Chagas de maneira mais ampla e de fácil assimilação.

Como funciona o calendário de combate à doença de Chagas?

O calendário ilustrativo foi uma parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), profissionais do Telessaúde-RS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e tecnólogos do Centro Estadual de Vigilância em Saúde do Rio Grande do Sul (CEVS-RS), responsáveis pelo Programa de Controle da Doença de Chagas.

O material respeita três aspectos importantes para melhor absorção das informações. São eles:

  • Layout: uso de fonte que permite leitura fácil, com cores contrastantes ao fundo, destacando os dados;
  • Ilustração: cada página contém frases e ilustrações que se complementam, visando atingir a população alfabetizada ou não;
  • Linguagem: direta e clara, de acordo com os conceitos prévios dos habitantes. A linguagem também é acompanhada de ilustrações didáticas, ou seja, o emprego de desenhos e imagens que ajudam a compreender a informação. Todo o conteúdo, portanto, simula a região rural, fazendo os moradores se sentirem melhor representados.

Mais sobre o Calendário Doença de Chagas

Com toda a escrita legível e o didatismo ilustrado do calendário, ficou mais fácil atingir a meta, que é fazer toda e qualquer pessoa da comunidade participar do combate à doença de Chagas.

Isso porque o calendário traz todas as espécies de triatomíneos capturados no RS (Triatoma infestans, T. rubrovaria, Panstrongylus tupynambai, Panstrongylus megistus, T. carcavalloi e T. oliveirai).

Inclui, também, figuras dos “barbeiros”, bem como um tutorial explicativo sobre como capturar e encaminhar os insetos ao Posto de Informação de Triatomíneos (PIT) ou algum serviço de referência municipal.

O calendário possui cabeçalhos acima de cada mês, ilustrando o passo a passo no combate aos vetores e à doença de Chagas. Alguns deles são:

  • Revisar esconderijos dos “barbeiros” (frestas, móveis, madeiras);
  • Evitar acumular madeiras, entulhos e qualquer coisa em desuso;
  • Limpar os arredores da residência de forma frequente;
  • Arejar a casa;
  • Lavar frutas e verduras antes de comer;
  • Manter fonte de água protegida e limpar caixa d’água.

O calendário ilustrado também foi distribuído na Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Tocantins e Brasília, na Coordenação Nacional de Chagas. O objetivo é divulgar o material para ajudar no controle vetorial da DCH, além de focar nos estados com predominância de T. infestans.

Considerações finais

A doença, que já afetou entre 2 e 5 milhões de brasileiros, segundo estimativa, é a terceira causa de implante de coração no país, de acordo com o cardiologista Sandrigo Mangini, do Programa Einstein dos Transplantes.

Como se trata de uma doença silenciosa, levando cerca de 20 a 30 anos para evoluir para o quadro de insuficiência cardíaca, muitos casos são negligenciados. Dessa forma, as pessoas convivem com a doença, sem diagnóstico e sem um tratamento que possa impedir os danos às células cardíacas.

Portanto, informar a população, com base em seus costumes, em uma linguagem informal e ilustrativa, é de grande importância no combate à doença de Chagas. Afinal, com apoio de uma estratégia educacional simples, os indivíduos podem contribuir para reduzir os casos da doença. Estar informado salva vidas!