Artigo

Um estudo sobre a cobertura da vacina HPV no Brasil

São Paulo, 8 de julho de 2021
 

Conhecer a cobertura da vacina HPV no Brasil significa estar por dentro de uma das mais frequentes infecções sexualmente transmissíveis. O HPV (o papilomavírus humano) incide sobre todos os países, e quase 300 milhões de mulheres portavam o vírus em 2015.

Mesmo que a persistência dessa infecção possa implicar na evolução para câncer no colo do útero (registrando mais de 500 mil novos casos a cada ano), umas estratégias principais para o controle é, precisamente, a vacinação.

Felizmente, a chamada “vacina HPV quadrivalente” integra o PNI (Programa Nacional de Imunização), de forma gratuita, desde 2014. A inclusão de populações-alvo nos calendários de vacinações ocorreu gradualmente.

Pensando nisso, apresentamos, ao longo deste artigo, as principais informações acerca da cobertura da vacina HPV no Brasil. Vale lembrar que, para os profissionais da saúde, manter-se bem-informado resulta diretamente na elevação da capacidade de atuação e, consequentemente, na capacidade de salvar mais vidas. Boa leitura!

Programa Nacional de Imunização

Apresentamos, neste texto, os dados referentes a 2017. Nesse ano, a primeira dose da vacina apresentou a maior quantidade de microrregiões brasileiras que atingiram a cobertura adequada, em comparação à segunda dose.

Anteriormente, o Programa Nacional de Imunização destacou-se por experiências de sucesso, sendo, todavia, desafiado pelas complexidades inerentes ao quadro epidemiológico de nosso país, pela inclusão de novas vacinas ao calendário e, também, pelos indicadores sociodemográficos.

Por analogia, a inclusão dessa vacina em uma população-alvo não composta por crianças habitualmente vacinadas se tornou um grande obstáculo. Para superá-lo, diversas nações elaboraram estratégias para realizar vacinações nas escolas.

Dessa forma, a vacina passou a ser gratuitamente disponibilizada nas escolas do Brasil e, também, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) que, por sua vez, colaboraram significativamente para atingir a meta de cobertura vacinal em 2014.

Metas de cobertura vacinal

Em virtude das dificuldades enfrentadas pela vacina HPV (tais como as modificações no esquema vacinal com o passar do tempo e as alterações na população-alvo), foi muito difícil alcançar toda a cobertura vacinal referente à primeira dose. Para tanto, deve-se levar em consideração as especificidades e heterogeneidades regionais.

Visto que esse sucesso pode ser observado, sobretudo, na coorte formada por meninas de quatorze anos de idade, tal população-alvo serviu de base para a expansão gradativa da cobertura vacinal e sua inclusão no calendário.

Nesse meio tempo, os dados estatísticos nacionais demonstram que as coortes compostas por meninas de treze e quatorze anos de idade – entre os anos de 2013 e 2016 – atingiram uma cobertura (na primeira dose) que excedeu as metas preconizadas.

Semelhantemente, a segunda dose experimentou uma cobertura vacinal abaixo das metas, na ordem de 69% em meninas de treze anos, porém, superou os índices entre as meninas de quatorze anos, com 89,7%.

Sistema Único de Saúde e a vacinação

Com a finalidade de entender melhor a dinâmica da cobertura da vacinação de HPV no Brasil, é preciso considerar que, ao compararmos as coortes mencionadas, é fácil notar que as meninas mais jovens tiveram maiores chances de serem vacinadas. Isso, provavelmente, sugere um importante avanço do PNI ao longo do tempo.

Outrossim, as demais coortes tiveram, na segunda dose, maiores chances de atingir a meta. Isso, possivelmente, indica a piora do PNI na manutenção dos altos índices de cobertura na segunda dose.

Em primeiro lugar, na análise das chances de atingir a cobertura desejada, em nível estadual, depois do controle a partir da variação entre coortes, o estado do Amazonas se destacou, pois foi o primeiro da região Norte a disponibilizar vacinas para HPV mediante o SUS (Sistema Único de Saúde).

Indicadores de saúde

Do mesmo modo, as análises acadêmicas sugerem uma relação entre o êxito da cobertura vacinal e a existência de residências com banheiros. No entanto, esse indicador mensura tanto as situações de compartilhamento de banheiro por mais de 1 domicílio (algo mais comum nas residências urbanas pobres) quanto a utilização de fossas (mais presente em áreas rurais).

Por outro lado, as microrregiões com maiores valores nesse indicador podem, no presente contexto, representar, simultaneamente, áreas rurais e zonas urbanas empobrecidas.

Em suma, esse dado confirma os resultados dos levantamentos nacionais acerca da imunização em adolescentes. Estas revelam que a cobertura alcançada pela primeira dose foi menor entre os jovens das regiões suburbanas e rurais – em comparação aos indivíduos que residem em áreas urbanas.

Posteriormente, os pesquisadores evidenciam a existência de grande diferença de cobertura entre os estados – algo que não pode ser explicado pela variável de renda e urbanidade utilizada na maioria dos estudos.

Enquanto essas heterogeneidades dependem, em grande medida, das políticas públicas implementadas pelos diferentes estados da federação, é altamente provável que esse fator seja determinante para a disponibilidade das vacinas para as populações-alvo.

Atraso vacinal

Conforme mencionado, muitos desafios criaram empecilhos para a cobertura ideal da vacina HPV em nosso país. Ao passo que as estimativas para a primeira dose sugerem alta abrangência, alguns locais, infelizmente, não acompanharam o padrão (Distrito Federal, por exemplo).

Eventualmente, a dinâmica oposta foi observada na segunda dose, isto é, baixos níveis de cobertura vacinal acumulada (considerando todas as coortes). A propósito, esse quadro indica que, embora existiram maiores oportunidades de realização da primeira dose, houve considerável descontinuidades no processo, gerando atraso vacinal.

Além disso, essa circunstância é reconhecida pelo Programa Nacional de Imunização como um dos elementos recorrentes, também, em outras vacinas. Isso faz com que a proteção contra enfermidades imunopreveníveis seja dificultada para a população.

Fontes confiáveis de informação

Embora a vacina HPV esteja disponível no Programa Nacional de Imunização, as conclusões apresentadas pelas recentes pesquisas científicas apontam as dificuldades em manter o alcance na cobertura vacinal da segunda dose.

Ademais, a desigualdade social contribui para uma relevante heterogeneidade espacial na cobertura vacinal, mostrando ser imprescindível que os gestores estaduais estabeleçam planejamentos eficazes e específicos para o território sob sua responsabilidade.

Cumpre ressaltar, por fim, que as mídias sociais têm uma função importante na disseminação das informações e recomendações de saúde. Não obstante, a veiculação de informações errôneas sobre a cobertura da vacina HPV no Brasil ampliam as complexidades de adesão. Mais uma vez, fica claro que estar informado salva vidas. Acompanhe mais assuntos relacionados no blog da Medictalks.