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Como aspectos nutricionais interferem no envelhecimento da pele?

São Paulo, 9 de junho de 2021
 

Assim como a exposição excessiva aos raios solares, aspectos nutricionais também podem interferir no envelhecimento cutâneo. Estas são constatações tidas como pontos pacíficos e que não geram grande discussão, mas o que ainda não está totalmente claro é como os aspectos nutricionais interferem no envelhecimento da pele.

Pela literatura existente a respeito do tema, sabemos que determinados nutrientes extraídos de produtos alimentícios são fundamentais para o fornecimento da energia necessária para manter em funcionamento as atividades orgânicas essenciais.

Porém, ainda não temos alcance de todos os efeitos e mecanismos que os aspectos nutricionais provocam, seja em prol da conservação da saúde da pele, seja pelo seu envelhecimento precoce.

A fim de compreender melhor essa dinâmica, os pesquisadores Kenia Johner e Cláudio Fernando Goelzer Neto publicaram um recente trabalho de pesquisa abordando se os aspectos nutricionais interferem no envelhecimento da pele.

A proposta do estudo foi o de fazer uma revisão da bibliografia existente a respeito, verificando a relação da ingestão dietética com o envelhecimento cutâneo.

Aspectos nutricionais interferem no envelhecimento da pele, mas por meios inesperados

Estamos acostumados a encarar o açúcar, a gordura e toda gama de alimentos processados como os vilões não só para a saúde da pele, mas  para o organismo como um todo.

Não sem razão, é claro.

O excesso de açúcar, seja no consumo de bolos, doces ou biscoitos, contribui para a formação dos Agentes Avançados de Glicação (AGEs).

Trata-se de agentes extremamente prejudiciais ao colágeno e à elastina, proteínas fundamentais para a constituição da matriz extracelular do tecido conjuntivo e sua elasticidade, alterando suas funções. São as causas para desordens na pele que resultam em rugas, flacidez e manchas.

Isso sem mencionar a possibilidade do quadro de obesidade e hipoglicemia, com todas as suas implicações já conhecidas.

A absorção diária e exagerada de gordura saturada inibe a atividade da SIRT1, proteína que estimula a atividade celular.

Ou seja, uma alimentação pobre de nutrientes e de teor exagerado de substâncias nocivas é a receita para o surgimento de problemas de saúde e envelhecimento precoce da pele.

Contudo, tal percepção não é uma novidade. O que, sem dúvida, é mais recente e ratificado nesse novo estudo de como os aspectos nutricionais interferem no envelhecimento da pele, é que uma alimentação dietética pode acelerar o processo de deterioração.

A alimentação dietética

Uma afirmação que evoca contrariedades por aparentemente colidir com princípios básicos da alimentação saudável. Como uma dieta preparada para excluir determinados nutrientes que reconhecidamente provocam abalos na saúde orgânica pode gerar o mesmo efeito daquela que lhe é diametralmente oposta?

Estaria toda a literatura existente sobre nutrição saudável em xeque? Certamente não chega a tanto. Apesar da aparente contradição, há uma explicação razoável e fundamentada. A resposta está no equilíbrio.

Não basta ter uma alimentação saudável, livre de conservantes, açúcares e gorduras. É necessário, fundamentalmente, uma alimentação balanceada. O excesso sempre é prejudicial, mesmo quando se trata de alimentos incontestavelmente saudáveis e ricamente nutritivos.

E o excesso nesse caso não se refere à sobra, mas à falta.

Qualidade não é suficiente para suprir as deficiências da pobreza

O Brasil das últimas décadas está mais preocupado com a saúde, ainda que muitos não consigam traduzir essa preocupação em atos concretos. Segundo levantamento da Federação das indústrias de São Paulo (FIESP), 80% dos brasileiros buscam alimentação saudável.

Porém, outra pesquisa, intitulada Diet & Health Under Covid-19, aponta que os brasileiros são os que mais ganharam peso durante a pandemia, entre os 30 países pesquisados. Isso demonstra que a preocupação com uma dieta saudável está em pauta.

Muitos brasileiros estão aderindo ou se esforçando para ter uma alimentação mais saudável. Cerca de 30 milhões de brasileiros são vegetarianos (aumento de 75% em relação a 2012). Isso normalmente envolve abandono de hábitos alimentares e redução de porções, ou seja, dietas.

Entretanto, a mudança da rotina alimentar deve ser cuidadosa, deve ser feita com um acompanhamento profissional, pois do contrário seus efeitos podem ser mais prejudiciais do que benéficos, mesmo em longo prazo. Acompanhamento que, infelizmente, é dispensado por uma fatia expressiva da população.

Segundo o Conselho Federal de Nutricionistas (CNF), há 131 mil nutricionistas em atividade no Brasil. Um número bem abaixo da demanda, mas mesmo assim não são raros os relatos desses profissionais sobre agendas vazias durante a semana. A principal causa dessa falta de procura seria por questões financeiras.

O resultado é um enorme contingente de pessoas buscando informações na internet e preparando suas próprias dietas se baseando em informações duvidosas.

Apenas selecionar alimentos sem determinados nutrientes e reduzir porções não garante uma alimentação saudável. Esse tipo de alimentação explica como aspectos nutricionais interferem no envelhecimento da pele e de maneira mais ampla.

Por quê?

Dietas restritivas, desbalanceadas, com ingestões baixas de proteínas, carboidratos e vitaminas, podem afetar de maneira negativa a pele ao não fornecer a ela os nutrientes essenciais. Não são os carboidratos e gorduras que promovem desequilíbrio na pele e no corpo como um todo, e sim o consumo em excesso desses nutrientes.

Eles também exercem funções importantes e salutares se consumidos moderadamente. Eles compõem a dieta necessária para uma alimentação saudável.

Quando em falta, podem causar efeitos negativos à pele, ainda que não sejam tão agressivos como os provocados pelo consumo em excesso. O consumo de gorduras insaturadas, por exemplo, ativa mecanismos de reparação em células, o que conduz a longevidade. A gordura é usada como fonte de energia que causa menos estresse oxidativo ao corpo.

Por isso, a crença de que cortar o consumo de doces e reduzir as porções da alimentação diária será suficiente para um corpo sadio é prejudicial e equivocada.

Isso significa que dietas vegetarianas e veganas são um risco? Não, mas esse tipo de dieta necessita de um planejamento para que garanta o consumo de todos os nutrientes necessários para uma alimentação saudável.

É plenamente possível obter uma dieta balanceada seguindo os preceitos da filosofia do não consumo de carne. Ocorre que a obtenção dos nutrientes se dá por caminhos naturalmente menos óbvios aos não praticantes. Por isso, é indispensável recorrer aos conhecimentos de um especialista, uma vez que os aspectos nutricionais interferem no envelhecimento da pele e que o equilíbrio continua sendo importante na alimentação.