Artigo

Um estudo sobre antivirais de ação direta na Hepatite C

São Paulo, 20 de julho de 2021
 

Apresentamos, neste artigo, as principais conclusões de um estudo realizado em 2021 acerca dos antivirais de ação de direta na Hepatite C. Por causa da gravidade desse vírus, ele vem sendo considerado, em todo o mundo, uma séria ameaça à saúde pública.

Nesse meio tempo, o vírus apresenta altas taxas de evolução à cronicidade, com possíveis evoluções para carcinoma hepatocelular e/ou cirrose hepática. Precipuamente, a OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que mais de 70 milhões de indivíduos convivam com infecções crônicas por Hepatite C (ou HCV).

Com efeito, a mortalidade associada à HCV já atingiu números comparáveis à tuberculose e superiores aos do HIV. Com o intuito de encontrar uma solução, os profissionais de saúde enfrentam, ainda, a dificuldade de não existir atualmente nenhuma vacina disponível.

Apesar disso, a possibilidade dessa solução aparecer em breve é, segundo os especialistas, muito baixa. De maneira idêntica, o único modo de evitar morbilidades e a mortalidade associada à Hepatite C consiste na realização de tratamentos adequados.

O surgimento de novas e mais eficazes terapêuticas

No último decênio, novas opções terapêuticas têm surgido, revolucionando os tratamentos de primeira linha dessa patologia e erradicando a cronicidade em muitos pacientes.

Afinal, essas alternativas terapêuticas – que permitiram a cura em níveis superiores a 95% – se baseiam nos AAD (Antivirais de Ação Direta). Aliás, as distintas combinações entre as classes destes antivirais (como o complexo NS5A, a polimerase NS5B e os inibidores de protease NS3) viabilizam tratamentos muito eficazes.

Mesmo que as combinações sejam feitas com as 2 classes principais dos fármacos supracitados, é possível obter uma RVS (Resposta Virológica Sustentada) a partir da oitava semana de tratamento, algo extremamente positivo neste campo.

Em segundo lugar, a pesquisadora ressalta que, a partir dos esquemas terapêuticos aprovados, a duração e a escolha dos tratamentos dependem, sobretudo, da existência de certos fatores, tais como a presença de coinfecções e/ou cirrose.

Por exemplo, essas novas terapêuticas de Antivirais de Ação Direta combinadas (sem Interferão peguilhado – IFN) têm elevada eficiência virológica, melhorando a tolerabilidade e segurança e, em consequência, convertendo-se nas melhores opções disponíveis para erradicar a HCV.

Descoberta do vírus

Antes que prossigamos com as considerações concernentes à ação dos AAD, é necessário estabelecer os antecedentes históricos do vírus. Logo depois de sua descoberta, em 1974, o periódico especializado “The Lancet” divulgou uma pesquisa, apresentando à comunidade científica um novo vírus, com períodos de incubação e características distintas dos vírus da Hepatite A e B.

Primeiramente, até esse momento, somente 2 vírus de Hepatite haviam sido devidamente identificados: “Hepatite Infecciosa (HAV)” e “Hepatite Sérica (HBV)”. Bem como essa terceira forma foi revelada em meados dos anos de 1970, os pesquisadores da época passaram a estudar a incidência de hepatites crônicas em pacientes que receberam transfusões sanguíneas.

Mas, as descobertas realizadas por esses investigadores colaboraram para eliminar os riscos de novas transmissões em muitos lugares do mundo, por meio da triagem das doações de sangue, da produção de testes laboratoriais para fundamentar os diagnósticos, do monitoramento das infecções, permitindo, assim, o desenvolvimento das terapêuticas específicas.

Estrutura viral

Em princípio, conhecer as propriedades gerais do Ácido Ribonucleico (RNA) viral e, também, das proteínas do HCV, permite o desenvolvimento de formas de tratamentos antivirais e diagnósticos mais eficazes.

Já que os estudos da estruturação da Hepatite C ainda são relativamente limitados, muitos trabalhos sugerem que o HCV se apresenta com um diâmetro de até 65 nm, contendo uma nucleocápside viral (na qual está presente o RNA viral genômico) de, aproximadamente, 33 nm.

Em conclusão, esta nucleocápside encontra-se rodeada por escudos protetores de proteínas envolvidos em invólucros lipídicos de origem celular – nos quais estão embutidas ambas as glicoproteínas do invólucro.

Ciclo de replicação

Os hospedeiros naturais da infecção por Hepatite C são os seres humanos. As células principais, que suportam a replicação e a infecção, são os hepatócitos (isto é, as células do fígado).

A saber, esse vírus é capaz de entrar no organismo do ser humano através de vários meios, como a transmissão por sangue (incluindo seus derivados) – a mais comum –, transmissão vertical e transmissão sexual.

Enfim, a despeito de o vírus da Hepatite C infectar as células alvo, proliferando em seu interior e, posteriormente, sendo liberado no espaço extracelular, ele não compromete a integridade das células.

Assim sendo, seu ciclo de replicação é parcialmente compreendido, uma vez que há uma dificuldade na identificação de um modelo in vitro de replicação, em função da complexidade da rede molecular na superfície celular no momento da entrada viral.

Contudo, há pesquisas que apontam que esses processos de replicação se assemelham aos dos demais vírus RNA de polaridade positiva e cadeia simples. De modo geral, o ciclo do HCV pode ser dividido, em sua replicação, pelas seguintes fases:

  • Entrada viral e adsorção;
  • Processamento e tradução das poliproteínas;
  • A replicação do RNA;
  • Libertação e montagem das novas partículas do vírus da Hepatite C.

Antivirais de ação direta e sua importância no tratamento da HCV

Para que os tratamentos da HCV evoluíssem, os AAD foram largamente introduzidos nos últimos anos. Não apenas isso: as novas terapêuticas permitem, graças à sua potência, que a maioria dos pacientes infectados sejam exitosamente tratados, incluindo os grupos de pessoas que, historicamente, foram tidos como difíceis de curar (crianças e adultos com cirrose descompensada e compensada).

Certamente, o desenvolvimento dos antivirais de ação direta propiciou uma ampla gama de combinações terapêuticas eficazes e seguras, superando os problemas de resistência e permitindo combinações de sucesso – em comparação com as terapêuticas tradicionais.

Nesse hiato, as mudanças revolucionárias e rápidas atingidas com as terapêuticas com antivirais de ação direta prenunciam um futuro otimista, de tal forma que a OMS anunciou, como um de seus objetivos, a eliminação global da Hepatite C até 2030.

Conquanto, para atingir essa meta global, diversos obstáculos políticos e organizacionais importantes terão que ser superados. Isto é, uma vacina eficaz e acessível pode ser buscada para a limitação nas propagações da infecção.

Conforme a dinâmica interna de cada país, a cura demandará o acesso facilitado aos antivirais de ação direta na Hepatite C, custos acessíveis, promoção da educação de grupos de pessoas infectadas, bem como dos indivíduos com riscos elevados de reexposição e diagnósticos confiáveis.