Artigo

Indivíduos com HIV são mais propensos a acumular gordura no fígado

São Paulo, 14 de maio de 2021
 

Diversos são os efeitos que doenças infecciosas provocam no organismo. A AIDS, provocada pelo vírus HIV, é uma das mais intrigantes já descobertas e apresenta extremo desafio desde sua descoberta. Uma das nuances do quadro é que esses pacientes são mais propensos a acumular gordura no fígado.

Além da inexistência de uma cura completa e efetiva, a doença debilita o organismo e seu sistema imunológico, o que abre portas para outras infecções, o que torna seus quadros ainda mais graves.

Estudos recentes sugerem que a infecção por HIV tem potencial para deixar os pacientes mais propensos ao acúmulo de gordura no fígado, ou a esteatose hepática.

Este se apresenta como um fator agravante da infecção, que já causa preocupação a programas de saúde por todo o mundo.

O HIV

Causador da síndrome da imunodeficiência humana, ou AIDS, o vírus da HIV foi descrito em 1982 após casos de deficiência imunológica aguda começarem a ser observados desde meados dos anos 1970.

O vírus afeta de forma aguda o sistema imunológico humano, principalmente os linfócitos T CD4+. Isso deixa o paciente altamente vulnerável a outras infecções. Mesmo aquelas menos danosas podem apresentar alto risco para a pessoa imunodeficiente.

Nas últimas quase 4 décadas de estudos constantes, tratamentos eficazes foram desenvolvidos, o que permite aos pacientes soropositivos ter mais qualidade de vida. Além disso, cada vez mais esforços são empregados para impedir novos casos.

Uma cura definitiva ainda não foi desenvolvida, apesar de avanços significativos terem sido alcançados nos últimos anos e estarmos cada vez mais próximos de uma vacina contra o HIV.

Órgãos de saúde classificam a infecção por HIV como uma epidemia. Por mais que tratamentos garantam a sobrevivência dos indivíduos, as interações da doença com o meio e mesmo efeito colaterais do tratamento devem ser observados com atenção.

A esteatose hepática

Caracterizada pelo acúmulo de lipídios nos hepatócitos por tempo prolongado, ou seja, por acumular gordura no fígado, a esteatose hepática é um quadro preocupante e com alto potencial de evolução para formas mais graves.

Estima-se que cerca de 30% da população apresentam esteatose hepática em algum nível e que, desses, cerca de metade dos casos possuem risco de desenvolver formas graves, como hepatite gordurosa, cirrose hepática ou mesmo hepatocarcinomas.

Apesar de assintomática em suas formas mais brandas, quadros graves de esteatose podem se manifestar em sintomas severos como inflamação e fibrose, insuficiência hepática, encefalopatia, hemorragias, queda no número de plaquetas, entre outros.

Fatores de risco para esteatose hepática

Pode-se classificar a esteatose hepática nas alcoólicas e não-alcoólicas.

O primeiro caso é auto explicativo, sendo o principal fator de risco o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Este comportamento já configura riscos variados para o fígado, sendo o acúmulo excessivo de gordura mais um deles.

Dentre as não-alcoólicas estão as provocadas por fatores de risco ou condições como sobrepeso, diabetes, má nutrição, perda brusca de peso, gravidez, cirurgias e sedentarismo.

Síndromes metabólicas, com pressão alta e elevadas taxas de colesterol, bem como obesidade abdominal, também estão diretamente relacionadas ao acúmulo de gordura no fígado.

Além disso, doenças infecciosas, como as hepatites B e C, que podem afetar gravemente o fígado, também compõem quadros associados aos quais deve-se ficar atento.

Esteatose em pacientes soropositivos

O estudo citado, feito por Perazzo e colaboradores, apresenta uma detalhada análise de grupos soropositivos para HIV em variadas condições de saúde e fatores de risco para o desenvolvimento de esteatose hepática.

Primeiramente, foram analisados 649 pacientes de HIV acompanhados pelo Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz – INI/Fiocruz. Estes foram comparados a exames de 15.105 pessoas HIV negativas do Estudo Longitudinal Brasileiro da Saúde do Adulto (ELSA-Brasil).

Por fim, selecionou-se 333 pacientes para a comparação final. Ambos os grupos possuíam alta variabilidade de características clínicas e demográficas.

Avaliou-se ainda a gravidade de gordura no fígado, exames de sangue e a circunferência abdominal.

Resultados

Os resultados mostraram que 35% dos pacientes soropositivos possuíam quadros de esteatose hepática. Em sua maioria eles possuíam idade mais elevada, uma maior circunferência abdominal e faziam o tratamento antiviral hhá mais tempo.

Estes números indicaram que indivíduos infectados por HIV possuem, aproximadamente, o dobro de chances de desenvolver esteatose hepática do que os soronegativos.

Dessa forma, é possível constatar um elevado grau de risco para o acúmulo de gordura no fígado por pacientes com HIV, mesmo quando estes não possuem outros fatores de risco ou condições que levam a doenças hepáticas, como coinfecção do HIV com Hepatite B ou C, por exemplo.

Dados sobre a esteatose hepática

Por outro lado, indo além do HIV, o estudo apresenta dados interessantes sobre pacientes soronegativos com esteatose hepática.

Segundo ele, 68% dos pacientes apresentavam alguma síndrome metabólica e 49% do total possuíam pressão alta ou alterações de colesterol. Pacientes com diabetes compunham 41%.

Estes dados são importantes para evidenciar os fatores de risco e a prevalência desta doença nos pacientes como estes.

Considerações finais

Para o profissional da saúde e pesquisador, é essencial entender como infecções virais, como o HIV, podem afetar o organismo de diferentes formas.

Isso permite não só uma maior correlação de dados e fatores, mas também proporciona informações cruciais para o desenvolvimento e aplicação de tratamentos mais eficazes e que garantam mais qualidade de vida aos pacientes.

Fatores de risco altamente presentes na população, como abuso de bebidas alcoólicas, pressão alta e obesidade elevam ainda mais o sinal de alerta. Muitas dessas doenças são negligenciadas e não diagnosticadas devidamente e parte considerável dos acometidos. Quando associados à epidemia de HIV, esses quadros se tornam ainda mais preocupantes.

Tratamentos modernos garantem aos pacientes soropositivos uma vida mais prolongada. Assim sendo, ao mesmo tempo que isso produz benefícios sem tamanho para a comunidade humana, essas pessoas se tornam propensas a desenvolver outras doenças que se encaixam como fator de risco para a esteatose hepática e quadros que levam mais anos para se agravar, com as condições citadas ou infecções por hepatites virais, que atacam fortemente o fígado.

Muito ainda tem a se conhecer e discutir sobre o HIV tornar o paciente mais propenso a acumular gordura no fígado. Cada nova informação nos torna profissionais melhores e permitem um atendimento mais individualizado a cada paciente com suas necessidades específicas.

Tem ainda mais curiosidade sobre o assunto? Então participe do III Simpósio HIV e Fígado. Confira a programação do evento e se inscreva. Aguardamos você!