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Imunoterapia tem poucos efeitos colaterais e pode ajudar no tratamento de câncer do fígado

São Paulo, 14 de junho de 2021
 

A Roche Farma Brasil obteve da Anvisa aprovação para fazer uso da imunoterapia atezolizumabe associado ao antiangiogênico bevacizumabe no tratamento de câncer do fígado.

Os antiogênicos têm alguma popularidade pelo seu uso através do medicamento Avastin, com indicação para a contenção na vascularização de tumores. Há especial aplicação em problemas vasculares associados aos vasos da retina (para uso ocular, além do bevacizumabe, estão aprovados o ranimizumabe e o aflibercept).

Agora, o medicamento terá uso no tratamento do carcinoma hepatocelular metastático, irressecável ou sem prévio tratamento.

De acordo com estudo da The New England Journal of Medicine, a combinação de atezolizumabe e bevacizumabe pode aumentar a sobrevida global e a sobrevida livre de progressão, reduzindo o risco de morte em 42% comparado ao sorafenibe, terapia-alvo aprovada em 2009.

Imunoterapia e tratamento de câncer do fígado

As imunoterapias estimulam o paciente a combater o câncer a partir de seu sistema imunológico, abastecendo-o com as “armas” necessárias. Estas podem ser células modificadas, anticorpos monoclonais, vacinas ou medicamentos especiais. Por essas razões, recebeu o nome de “terapia biológica”.

O crescente interesse é parte de uma história que remonta ao século XIX, quando William Coley (1862-1936), cirurgião de ossos, observou a ação de nossas células defensivas.

A partir da assertiva que, se superexcitadas, poderiam reagir extraordinariamente contra um tumor, Coley ministrou a infusão de germes aos seus pacientes. Apesar de não conseguir “curar” o câncer diretamente, seus experimentos levaram ao interesse nessa área. Por tais estudos, se considera Willam Coley “o pai da imunologia do câncer”.

A imunoterapia tem indicação para atenuar sintomas que prejudicam as atividades cotidianas do paciente, em casos que os tratamentos aplicados estejam gerando muita moléstia ou mesmo com a finalidade de reforçar a sobrevida em casos que aqueles não tenham boa eficácia.

Em média, com um mês de imunoterapia, já se observa alguma resposta. As aplicações costumam levar uma hora, com intervalos de tempo de aplicação que podem chegar a duas ou três semanas.

Os efeitos colaterais das imunoterapias costumam ser leves, em comparação a outros, como a quimioterapia. Febre, cansaço, dores de cabeça, além de tonturas, inflamações, dor nos músculos. Relatos e registros aquém dos sofrimentos maiores que normalmente os profissionais da saúde acompanham junto aos pacientes.

Outra visão otimista para a imunoterapia foi o perfil seguro da combinação, isto é, sem conflitos graves relacionados com medicamentos receitados em monoterapia.

Prêmio Nobel

O oncologista Gustavo Fernandes é bastante otimista. Prediz que, sendo hoje mais da metade dos tipos de câncer tratáveis com imunoterapia, nos próximos anos tal tendência deve aumentar. Bem como, provavelmente, as pesquisas e os resultados positivos. O que é importante também para fazer cair o preço da terapia, de tal forma que possa ser acessível a classes menos favorecidas.

Não é à toa que o prêmio Nobel de Medicina de 2018 foi cedido a dois cientistas que conduziram estudos de imunologia contra o câncer. O americano James P. Allison e o japonês Tasuku Honjo abriram os trabalhos para o combate contra formas de câncer como o melanoma, câncer de pulmão, de rim, de bexiga, de pescoço e cabeça, linfoma, tumores intestinais, de fígado e gástricos.

Fígado e câncer de fígado

É o quarto tipo de câncer mais letal do mundo, com 700 mil óbitos anuais.

Uma velha barreira ao tratamento antecipado é a dificuldade de detecção precoce. Os exames de rastreamento ainda estão em desenvolvimento. A maior parte do fígado localiza-se sob a caixa torácica direita, o que dificulta a detecção por exames físicos.

O fígado é responsável pela degradação e metabolização de grande quantidade de substâncias nocivas ao corpo. Também produz bile para a digestão, faz a transformação de variadas substâncias em nutrientes e faz a produção de proteínas vitais para a coagulação e manutenção do equilíbrio de fluídos para o corpo.

Um órgão altamente regenerativo funciona até com redução de 30% de seu volume. Seu sangue é suprido pela veia porta, e secundariamente pela artéria hepática. A saída do fígado se dá pelas veias supra-hepáticas, fazendo retorno ao coração pela veia cava inferior. O fígado se constitui pelos lobos direito e esquerdo, por sua vez recobertos por uma tênue cápsula fibrosa.

As células do fígado, os hepatócitos, é onde costumam ocorrer eventualmente os hepatocarcinomas, um tumor maligno do trato digestivo. Por ocorrer normalmente de forma assintomática, o câncer de fígado costuma ser detectado em estágio avançado, de tal sorte que os nódulos já podem estar causando grande comprometimento ao indivíduo. Por isso, dos pacientes com hepatocarcinoma, somente de 20 a 30% estão com o tumor ligado somente ao fígado.

Existem dois tipos de carcinoma: o hepatocelular e o hepático de variante fibrolamelar – este, mais raro. Outra forma de câncer no fígado é o colangiocarcinoma, ocorrido nos dutos de transporte da bile para o intestino.

Terapia-alvo e imunoterapia

Por enquanto, a imunoterapia para o câncer tem sido mais observada frente ao melanoma e o câncer de pulmão. Mas supõe-se como alternativa, por exemplo, para pacientes de terapia-alvo que estejam fazendo uso do Sorafenib. A combinação dos medicamentos da imunoterapia com a condição do paciente pode produzir resultados positivos.

Recomenda-se e imunoterapia para os casos de tratamento de câncer no fígado classificado como irressecável, inoperável e avançado.

A terapia alvo pode trabalhar em consonância à imunoterapia, por seu escopo. Possui eficácia na atuação com as proteínas tirosina quinase. As inibidoras de tirosina bloqueiam as proteínas que auxiliam as células de tumor a se proliferarem, de tal forma que formam novos vasos sanguíneos para sua nutrição.

Em imunoterapia, o pembrolizumabe e o nivolumabe têm uso para a PD-1, uma proteína nas células do sistema imunológico chamadas células T, que obstrui a ação destas em certas situações que exigem respostas a corpos estranhos.

No bloqueio da proteína PD-1, os medicamentos produzem aumento da resposta imunológica voltada às células cancerígenas, uma resposta vital contra o crescimento de tumores.

A CTLA-4 é outra proteína manipulável com medicamentos como o Ipilimumab. Em combinação com o Nivolumab, tem sido também usado em pacientes tratados previamente com o Sorafenib.

Considerações finais

Os estudos oncológicos têm uma grande missão pela frente, que não é de hoje e não promete trégua.

Estudos, pesquisas, tecnologias e profissionais continuam buscando por soluções e atenuantes para essa velha luta do homem dentro do seu próprio gene, uma luta de vida contra vida. Tanto quanto maiores as dificuldades, mais a humanidade se empenha e produz milagres, inclusive no tratamento de câncer no fígado.

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