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Transplante hepático em pacientes com HIV deve ser cada vez mais frequente

São Paulo, 21 de maio de 2021
 

O transplante hepático em pacientes com HIV promete ser cada vez mais frequente.

Há cerca de 10 anos, tal hipótese era simplesmente impensável, pois os portadores do HIV, por sofrerem repressão do sistema imunológico, constituíam um grupo com alta incidência de infecção.

Realizar o transplante hepático em um soropositivo era apostar em um caso com chances mínimas de prolongar uma boa qualidade de vida em detrimento de outro com maiores chances.

O comportamento do vírus HIV não se alterou e os portadores continuam a ter uma imunidade reduzida. Porém, os avanços do tratamento de pessoas com HIV foi notável nesta última década e tem possibilitado o transplante hepático em pacientes com HIV.

Aumento da expectativa de vida

A área que mais avançou no tratamento da AIDS foi a de medicamentos. Cada vez mais potentes e sofisticados, melhoram a eficiência para abrandar os sintomas do vírus no organismo, aumentando sua proteção contra a ação de agentes nocivos.

Como consequência desse aprimoramento medicamentoso, a expectativa de vida de pacientes com HIV aumentou nas últimas décadas. Nos primeiros anos em que a doença se tornou um problema de saúde pública mundial, a expectativa de vida era muito reduzida, o que tornava muito raro os casos em que se fazia necessário considerar um transplante de fígado.

Com a extensão da vida funcional desses pacientes, a doença hepática terminal passou a ser a causa principal de óbito por se tratar de uma doença frequente em pessoas com coninfecção HIV, hepatite B (HBV) e hepatite C (HBV).

Tratam-se de moléstias que compartilham os mesmos fatores de riscos para transmissão. Os dois tipos de hepatites são, sem dúvida, extremamente prejudiciais ao fígado por causar lesões graves. Em muitos casos, são lesões impossíveis de serem revertidas, deixando como única opção o transplante.

Avanço da interação medicamentosa

Outro fator que prejudicava o transplante hepático em pacientes com HIV era o conflito de medicamentos para o tratamento da HIV e para o pós-transplante.

A interação entre esses componentes inibia a ação de alguns princípios ativos, prejudicando a proteção contra os efeitos mais severos do vírus ou a adaptação do órgão à nova estrutura orgânica.

O avanço das pesquisas e da tecnologia para o desenvolvimento de remédios menos agressivos proporcionou harmonia na interação medicamentosa, reduzindo os riscos de rejeição e de piora do estado de saúde.

Primeiro caso

Em 2020, o Estado de Minas Gerais pôde comemorar o primeiro caso de transplante hepático em pacientes com HIV. Ele ocorreu Hospital das Clínicas de BH.

O paciente era um homem de 55 anos, morador da capital mineira. Ele tinha câncer no fígado e cirrose. O transplante era a única opção que restava.

A cirurgia foi um sucesso e o paciente pôde receber alta e se recuperar em casa.

Outro caso de destaque foi o transplante hepático em paciente com HIV ocorrido no estado do Ceará. O histórico do beneficiado incluía, além de Hepatite C crônica e HIV, diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e esquizofrenia.

À época, o indivíduo contava 60 anos e uma juventude marcada pelo consumo de drogas.

Com a realização de transplantes hepático em pacientes com HIV, ampliam-se as possibilidades de tratamento dos pacientes com o vírus e diagnosticados com a doença terminal hepática.

Sem dúvida, uma boa notícia para esse grupo, que recentemente ainda recebeu outra boa dose de esperança: os resultados promissores de uma vacina contra HIV testada em humanos.

Condições para o transplante hepático em pacientes com HIV

Não se recomenda a cirurgia para todos os pacientes com HIV.

É preciso que o vírus esteja sob controle, que a carga viral esteja negativa, isto é, quando a detecção do HIV pelos exames é impossível. Além disso, os linfócitos, as células de defesa do organismo, precisam estar com taxas próximas do padrão.

Somente nessas condições indica-se o transplante hepático em pacientes com HIV.

O que muda com a cirurgia?

Pelas palavras do cirurgião Leandro Amado, coordenador de transplante hepático do HC de BH, em termos técnicos, o procedimento em transplante hepático em pacientes com HIV não muda.

A parte mais desafiadora se encontra na pós-cirurgia e na administração de medicação imunossupressora. Aliás, medicação essencial para pessoas transplantadas e também para manter em controle o vírus HIV.

Esperança de inclusão

Como dito, os primeiros transplantes hepáticos em pacientes com HIV aumentam as opções de tratamento para esse perfil de paciente até então ignorado da lista de transplante.

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos no final de 2003 mostrou que identificou 30 profissionais que atuavam em 41 dos 53 grupos que promoviam transplante hepático e ativos.

Do questionário enviado por endereço eletrônico, 70% responderam e 62% revelaram que não incluíam pacientes anti-HIV reagentes em lista para transplante. A principal razão alegada era o baixíssimo número de casos, de experiências de transplante com esse tipo de paciente não só no Brasil, mas no mundo.

Reafirma-se com isso a importância de experiências bem-sucedidas para incentivar outros profissionais e instituições a debater a inclusão de soropositivos com problemas hepáticos em listas de transplante de órgãos.

Experiências no mundo

Fora do Brasil, o transplante hepático em pacientes com HIV teve seu primeiro grande incentivo em 2016. Neste ano, houve o primeiro transplante hepático em pacientes com HIV do mundo. A cirurgia envolveu dois pacientes com AIDS.

O doador do órgão era portador de HIV. Após sua morte, seu fígado foi transplantado para um paciente que havia contraído o vírus há mais de 20 anos. Foi o primeiro caso desse tipo de cirurgia no mundo.

Esse tipo de operação, antes, era proibida. Porém, essa determinação caiu três anos antes devido à escassez de órgãos para doação no país – escassez que provocava a morte de muitos pacientes na fila de transplante.

Para reduzir essa tragédia, a restrição de órgãos doados por pessoas com HIV foi cessada, o que sem dúvida contribuiu para diminuir o número de óbitos na fila de espera.

O sucesso dessas iniciativas tende a espalhar a prática para outras regiões do mundo e tornar o transplante hepático em pacientes com HIV algo cada vez mais corriqueiro e necessário.

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