Artigo

Analisando o conceito da Síndrome Congênita pelo Zika vírus

São Paulo, 4 de junho de 2021
 

A Síndrome Congênita pelo Zika vírus é um estudo tão recente quanto o próprio estudo e monitoramento das ocorrências do vírus no Brasil. Porém, importante para compreender características como: a gama de alcance dos defeitos congênitos, janela de tempo entre manifestação de causa e efeito, e as relações.

A microcefalia fetal ou pós-natal ligada ao Zika vírus tem sido estudada diretamente desde o ano 2015, no qual se definiu a microcefalia como perímetro cefálico menor que dois ou mais desvios-padrão do que a referência para o sexo, idade ou tempo de gestação.

Neste período, casos como o de duas crianças na Paraíba com o vírus no líquido amniótico, e demonstrando microcefalia na ultrassonografia fetal, registraram a relação. A partir do monitoramento, para o período iniciado em novembro de 2015 e concluído em novembro de 2016, reportaram-se 2.366 casos de microcefalia e/ou alterações do Sistema Nervoso Central, relacionado à infecção pelo Zika vírus.

O maior percentual pertenceu à região Nordeste (76,24%) e o menor ocorreu na região Sul (1,14%). Os maiores números de casos por Estado foram no Nordeste: Bahia (18,30%), Pernambuco (17,24%) e Paraíba (8,07%).

Antecedentes do Zika vírus

Registrou-se o Zika vírus inicialmente na África Oriental, na floresta Zika, em Uganda, década de 1950. Em seguida, alcançou o sudeste asiático.

Em 2007 houve um surto na Micronésia e posteriormente na Polinésia Francesa. Sua propagação chegou à América Latina até se tornar epidemia.

Transmissão

Além da transmissão por via sexual, são vetores do vírus dois mosquitos. O “famoso” Aedes aegypti (mesmo transmissor da dengue e da febre chikungunya) e o Aedes albopictus. O mosquito pode transportar o vírus – coletado do sangue de um infectado – pela vida inteira. Como um mosquito adulto vive em média 45 dias, a capacidade de transmissão é grande.

Após a picada, os sintomas podem aparecer num período que varia de 3 a 12 dias. Ambientes com temperatura próxima a 30 graus são mais propícios.

O mosquito costuma picar no início da manhã e pelo final da tarde, fugindo ao sol forte. Ainda assim, pode picar à sombra. A picada é quase imperceptível, indolor e sem coceira – a princípio. É comum haver picadas nos joelhos, panturrilhas e pés, pelo voo baixo dos insetos.

Com as vacinas ainda muito recentes, a prevenção continua sendo o melhor remédio.

Síndrome Congênita pelo Zika vírus

Um conjunto de defeitos congênitos além da microcefalia estão sendo observados nos recém-nascidos.

Outros estudos têm levantado correlações entre o vírus e estados patológicos, como a Síndrome de Guillain-Barré.

O conceito de Síndrome Congênita pelo Zika Vírus deve ser esclarecido para viabilizar sua abordagem pelas disciplinas de saúde, para que se possa identificar e debruçar sobre defeitos congênitos além da microcefalia. As características que auxiliam na identificação da Síndrome Congênita pelo Zika vírus são o objetivo maior deste artigo, desenvolvido a partir da análise conceitual de Walker e Avant.

A partir da seleção do conceito e conferência de seus possíveis usos na literatura, os atributos que dão essência ao conceito são checados e, assim, dá-se um caso exemplar aplicável ao conceito.

A revisão sistemática utilizou-se de artigos completos, manuais da Organização Mundial de Saúde (OMS) e manuais do Ministério da Saúde (MS) brasileiro sobre o tema.

Definição

No cruzamento e análise de dados compilados, os atributos que levam ao conceito, identificados como características essenciais, foram: calcificação intracraniana, ventriculomegalia, volume cerebral diminuído – encontradas em todas as crianças com essa síndrome.

Pode-se também observar, em ressonâncias de crianças com a síndrome, as seguintes alterações neurológicas: malformações corticais graves, hipoplasia de tronco e/ou cerebelo, hipodensidade anormal da substância branca, alargamento dos espaços extra-axiais do LCR, disgenesia do corpo caloso, agenesia do cavum septum pellucidum e lisencefalia.

Como características necessárias para que ocorra esta malformação congênita, definiu-se a transmissão transplacentária do Zika vírus de mãe infectada pela picada do mosquito Aedes SSP ou por via sexual. Tal é o antecedente.

Assim, elaboraram-se três modelos típicos para representar o conceito: “mãe infectada pelo vírus durante a gestação com e bebê com microcefalia ao nascer”; “mãe infectada pelo vírus durante a gestação e bebê com perímetro cefálico normal ao nascer”; “mãe assintomática com infecção do vírus e bebê com microcefalia ao nascer”.

Pré-resultados

A determinação dos atributos representa a essência do conceito Síndrome Congênita pelo Zika vírus, pois a calcificação intracraniana, ventriculomegalia e volume cerebral diminuído são características comuns às crianças que expressam o conceito. A microcefalia pode se apresentar ao nascimento ou posteriormente.

A alta e notória incidência de microcefalia nos casos da região Nordeste do Brasil, em especial, suscita investigar fatores ambientais, socioeconômicos ou biológicos, para identificação de algum fator oculto. A princípio, ao associar a infecção à microcefalia, vale a detecção de RNA do vírus Zika na placenta, líquido amniótico e cérebro de fetos com microcefalia.

Consequências resultantes em estudo são um conjunto de sinais e sintomas além da microcefalia fetal ou pós-natal como, por exemplo, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, anormalidades auditivas e visuais, desproporção craniofacial, suturas cranianas sobrepostas, osso occipital proeminente, excesso de pele nucal, epilepsia, irritabilidade, discinesia, hipertonia, hipotonia, hemiplegia, hemiparesia, espasticidade e hiperreflexia.

Considera-se assim a possibilidade, pelos fins desta análise, da microcefalia como um sinal da Síndrome Congênita pelo Zika vírus. Pode esta estar ou não presente, sendo que – importante salientar – a ausência de microcefalia não exclui a infecção congênita, que pode gerar eventualmente os agravos.

Considerações finais

Pela razão do Zika vírus ainda não ter seus limites determinados, é interessante ampliar os critérios de triagem, exames, análises e tratamento.

As crianças acometidas podem apresentar retardo no desenvolvimento cognitivo, motor e fala, visão e audição, epilepsia, paralisia cerebral.

Ainda não há tratamento específico para a Síndrome Congênita pelo Zika vírus, que é um conceito em construção. Entretanto, o horizonte de consequências é ainda desmedido, o que prefigura importante elaborar a assistência para a criança de acordo com as complicações. Um processo que começaria a partir da identificação do vírus na gestante, envolvendo integralmente profissionais da saúde relacionados e familiares da mãe e bebê.

Estudos recentes no Brasil têm mostrado como o vírus age no cérebro dos bebês, o que pode possibilitar também futuros avanços na prevenção e reversão de danos.

Para saber mais sobre a Síndrome Congênita pelo Zika vírus, faça sua inscrição em nosso V Simpósio Infecto, que acontecerá nos dias 15 e 17 de junho. Estar informado salva vidas!