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Prevenção do câncer bucal e a importância do seu diagnóstico precoce

São Paulo, 24 de junho de 2021
 

A prevenção do câncer bucal é um importante tema dentro das práticas médicas, dada sua presença considerável na população, principalmente masculina.

Por ter como fatores de risco práticas controláveis, sua prevenção pode ser feita através de campanhas de conscientização e legislação mais rígida para a venda de produtos como cigarros e bebidas alcoólicas.

Ainda assim, isso se mostra um desafio dada a normalização de tais práticas, muito comuns em décadas anteriores, e que apresentam uma nova arrancada em sua disseminação na população jovem.

Fatores de risco do câncer bucal

Como é comum em diversas patologias, e especialmente entre os cânceres, o surgimento de neoplasias malignas bucais é multifatorial.

Portanto, uma variedade de influências internas e externas contribuem para o surgimento e evolução dos tipos de câncer bucal.

Dentre as internas existem os fatores genéticos, cada vez mais mapeados através dos avanços nos estudos com biologia molecular, e nutricionais, decorrentes da alimentação.

Já entre os fatores externos destacam-se o consumo de fumo e álcool como principais.

Além disso, fatores ambientais como exposição aos raios solares e lesões mecânicas nos tecidos, e também a higiene bucal, apresentam forte influência no desenvolvimento das hiperplasias.

Tabagismo

As diversas formas de tabagismo são comumente relatadas como principal fator para o desenvolvimento do câncer bucal. Seja por meio de cigarros, charutos e cachimbos, fumo de rolo mascado ou aspirado no narguilé ou como rapé.

Primeiramente, as altas temperaturas alcançadas pela ponta dos meios, e também da própria fumaça ingerida, são responsáveis por severa agressão à mucosa. Isso potencializa o surgimento de lesões e pode facilitar o contato com os compostos químicos cancerígenos presentes no próprio fumo.

Por sua vez, tais compostos, ao entrarem em contato com as células bucais, podem gerar reações que danificam as células, suas proteínas, lipídios e o próprio DNA – principalmente ao produzirem em suas cadeias reativas os chamados radicais livres na forma de moléculas de oxigênio reativo.

Dependendo do tempo de uso e frequência, as chances de desenvolvimento de carcinomas decorrentes, direta ou indiretamente, do tabagismo, podem ser de 4 a 20 vezes mais altas do que em pessoas que não o fazem.

Etilismo

Apesar de não tão elevado como o tabagismo, o consumo excessivo e prolongado de álcool está relacionado a uma grande parte dos casos de câncer bucal. É relatado que o etilismo pode aumentar em até 9 vezes as chances de desenvolvimento do câncer bucal.

Sua principal ação carcinogênica é a reação do acetaldeído, metabólito capaz de provocar alterações no DNA.

Menos comum, mais ainda presentes, são relatadas as deficiências nutricionais secundárias provocadas pela cirrose hepática em decorrência do uso prolongado.

Vale ressaltar o uso associado de tabaco com o álcool. Esta soma de fatores aumenta drasticamente a exposição das células bucais, aumentando ainda mais a incidência de neoplasias e o possível desenvolvimento de câncer de boca.

Alimentação

Alguns fatores nutricionais são relatados como influentes no desenvolvimento do câncer de boca. Os principais são decorrentes de dietas pobres em antioxidantes, que combatem os radicais livres, e aquelas que são fonte destes.

Dietas que carecem de proteínas, vitaminas e minerais essenciais também podem ser influentes, assim como as ricas em álcool e gordura.

Fatores genéticos

Através da biologia molecular, é possível entender que os fatores ambientais externos associados aos genéticos são fatores causadores de cânceres.

Apesar disso, uma parte relativamente pequena é associada diretamente a fatores genéticos, cerca de 5 a 10%.

Outros fatores

Alguns outros fatores, como exposição a raios solares, ventos constantes, lesões provocadas por próteses bucais e má higiene se apresentam como influentes para o surgimento de hiperplasias bucais.

Principalmente por provocarem lesões, que danificam a mucosa e expõem as células.

Prevalência da população

O câncer bucal é uma importante doença no Brasil, que é o terceiro país com mais casos no mundo.

Entre os homens ele é o 5º tipo mais comum, e no geral se mostra como o 12º. O maior índice é observado entre homens acima dos 40 anos.

Nos anos de 2020 a 2022, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que 15,190 novos diagnósticos serão feitos por ano, 11.180 em homens e 4.010 nas mulheres.

Santos e colaboradores mostraram em 2010, através da revisão de prontuários de pacientes da Fundação de Beneficência Hospital de Cirurgia, em Aracaju (SE), e do Centro de Referência de Lesões Bucais da Universidade Estadual de Feira de Santana, os números referentes ao tabagismo e etilismo.

Mais de 60% dos pacientes com câncer ou lesões cancerizáveis relataram consumo prolongado ou excessivo de álcool. Quanto ao tabagismo, no primeiro foram 81,81% dos casos e, no segundo, 76,1%.

Importância do diagnóstico precoce

A detecção de doenças em seus estágios iniciais é aceita como um importante fator para sua cura ou tratamento eficaz de forma geral.

Quando tratamos do câncer de boca, e outros tipos, este é o principal fator, alcançando os 95% de taxa de cura.

Em seus estágios iniciais, o câncer pode ser facilmente removido por meio de cirurgias, causando menos dano ao organismo e evitando seu crescimento e metástase.

Mesmo nos casos em que seja preciso o uso associado de radioterapia, o tempo de exposição será consideravelmente menor e as taxas de cura mais altas, causando menos danos ao organismo do paciente.

O diagnóstico precoce também é essencial para uma rápida intervenção nos hábitos que favorecem seu agravamento, principalmente o uso de tabaco e álcool.

No entanto, dada a falta de sintomas nos estágios iniciais e uma leniência comum na população com relação a lesões bucais, o diagnóstico precoce deste tipo de câncer é difícil.

Formas de prevenção

Como vimos, os principais fatores que provocam o surgimento e agravamento dos casos de câncer de boca são comportamentais, como o tabagismo e etilismo.

Portanto, sem dúvida, a principal forma de prevenção dos casos passa pelo incentivo ao abandono ou diminuição desse consumo.

Além de uma qualidade de vida melhor, a suspensão ou controle do vício evita o surgimento das neoplasias. Isso pela simples falta de contato com as substâncias provocadoras das reações relatadas.

Por outro lado, é notória a necessidade de campanhas realmente efetivas para educar a população a respeito do que é o câncer de boca e os fatores que podem provocá-lo.

Boa parte da população não conhece as formas iniciais e ignora lesões potencialmente cancerizáveis.

Dessa forma, o incentivo ao auto exame e visita constante ao médico dentista também devem ser abordadas em centros de saúde, eventos, campanhas publicitárias e disseminadas para todos.

Por fim, como é comum no tema, a educação e investimento público são a principal chave para a prevenção de câncer bucal.