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Excesso de mortes por causas respiratórias nos 6 primeiros meses de COVID-19

São Paulo, 4 de junho de 2021
 

Um estudo publicado no Caderno de Saúde Pública avaliou o excesso de mortes por causas respiratórias nos 6 primeiros meses de COVID-19, em adultos com idade igual ou superior a 20 anos, em oito metrópoles regionais Brasileiras.

Em janeiro de 2021, a OMS relatou o registro de aproximadamente 100 milhões de casos de COVID-19 pelo mundo, tendo a marca dos mortos um alcance de 2,2 milhões. No Brasil, no mesmo período, contava-se 220 mil mortes. Neste ponto, era apenas superado pelos EUA, como assim continua.

Na declaração de óbito (DO), como documento de registro de causa mortis, para o caso de doença pela COVID-19, recomenda-se que se reporte como causa básica a COVID-19. Inclusive, devendo a suspeita clínica sem resultados de laboratório vir a ser declarada como suspeita de COVID-19.

Com o excesso de mortes num cenário tão amplo e variado, suscitam-se análises de filtro, sendo as causas respiratórias um enfoque importante, também por tratarem dos quadros mais gravosos entre infectados, onde predominam os registros de mortes.

O objetivo é chegar à maior clareza estatística, que, num estudo publicado no Caderno de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, a partir das mortes com quadros respiratórios, pretende dar enfoque avaliativo a este conjunto de mortes que potencialmente se associam ao novo coronavírus.

A abordagem

Oito metrópoles regionais figuraram na amostragem: duas da região Sudeste, duas da região Nordeste, duas da região Norte, outra da região Centro-Oeste e outra da região Sul. Até o fim do período coberto, 75% das mortes notificadas por COVID-19 se concentraram nessas cidades.

A baixa incidência de mortes pelo vírus entre crianças e adolescentes motivou a escolha da idade para 20 anos ou mais.

Os registros de causa mortis utilizaram as classificações potencialmente relacionadas ao desfecho provocado pela COVID-19. As mortes por causas respiratórias foram utilizadas como proxy das mortes que se associavam à infecção causada pelo novo coronavírus, entre elas: influenza (J9-J11), pneumonias (J12-J18 e J22), bronquites (J40, J41 e J42), bem como outras doenças pulmonares obstrutivas crônicas (J44).

A análise dos dados foi realizada em um software, considerando para a estimativa de excesso de mortes por causas respiratórias, um cálculo da razão entre o número observado e o esperado de óbitos. Conformou-se também a pesquisa com a Resolução n. 466/2012 do CNS.

Resultados

As oito regiões reunidas somaram 46.028 mortes, no período compreendido entre 23 de fevereiro e 8 de agosto de 2020. Os valores esperados no cálculo médio para 2020 seriam de 11.160 óbitos decorrentes de causas respiratórias, o que indica, portanto, uma discrepância, ou excesso de mortes de 312%.

A região de Manaus teve o maior registro de excesso de mortes, ficando em 758%, sendo o menor São Paulo com 174%.

Os indivíduos com idade entre 40 e 59 anos tiveram um número mais expressivo de mortes.

Cruzamento de dados e discussão

Entende-se que, nos primeiros seis meses, a trajetória de mortes pelo vírus tenha sido geograficamente heterogênea, observando-se indicativos como uma maior mortalidade excedente em momentos precoces na região Norte, se comparar às regiões Sudeste e Sul.

Num certo período, houve um notável excesso de mortes por causas respiratórias nas regiões de Belém, Fortaleza e São Paulo. Até o fim do mesmo período, o Ministério da Saúde havia notificado apenas 18 mortes por COVID-19 em todo o país.

Em posterior atualização, que compõe os dados atuais, consta para a região de São Paulo 32 mortes no período, com nenhuma morte em Belém e 4 mortes em Fortaleza.

Tais alterações e oscilações de dados nos permite questionar a dimensão da subnotificação no início da pandemia.

Variações locais

Num outro caso, observa-se a notificação de mortes ocorridas em Fortaleza nos dias 13 e 14 de fevereiro de 2020, com uma terceira morte no dia 20. Até novembro de 2020, se considerava como as datas oficiais, respectivamente, 25 de fevereiro e 12 de março.

Nas quatro cidades que compõem o quadro das regiões Norte e Nordeste, observou-se uma explosão de mortes após seis meses do início da pandemia. Este pico seguiu o pico anterior recente, considerado o período de predominância de excesso de mortes por causas respiratórias, o que sugere transmissão comunitária prolongada.

Nas duas cidades da região Sudeste, no momento de pico de mortalidade excedente, houve divergência não apenas temporal, mas de intensidade. Já no Rio de Janeiro, o período de maior intensidade de mortes se seguiu de uma redução sequencial. A mortalidade maior em São Paulo ocorreu em períodos posteriores ao RJ, e com menor intensidade.

Note-se uma alta variabilidade de fatores de análise, e a importância, para tal, das autoridades estarem trabalhando com dados bem formalizados, normatizados e informatizados.

Lockdown

É importante ter em conta também os modelos de adoção de medidas restritivas, seu alcance e período implantado. A resposta à epidemia está vinculada a fatores de transmissão e contato que abrangem grandes diferenças de um local para outro.

Cada prefeitura, tendo adotado um sistema próprio de gestão das mediadas restritivas, implicou numa situação e ambiente diferenciado para a dispersão da pandemia. Tais influências abrem conceitos de análise e organização de dados não podem ser selecionados de modo excludente.

Necessidade de novos estudos

O estudo em questão sofreu certas limitações, como a falta de um banco de dados com codificações das causas de morte para o ano de 2019-20, finalizados pelo Ministério da Saúde. A notificação foi em paralelo com o Registro Civil do Ministério da Justiça. O atraso na distribuição dos dados possibilitou uma forte margem de sub-registros.

Outrossim, como resultante, sugere-se que o indicador de excesso de mortes por causas respiratórias nos 6 primeiros meses de COVID-19 é uma alternativa importante para ajudar no dimensionamento de impacto da epidemia e sua evolução em contextos diferentes.

Também é um importante alerta para a necessidade de aperfeiçoar sistemas de informações sobre mortalidade, que conferem eficácia ao planejamento adequado de ações emergenciais.

A epidemia pegou o mundo de surpresa e se mostrou um desafio para profissionais de todas as áreas, que tiveram de trabalhar sob diversos regimes e dificuldades. Escassez e urgência passaram por todos, direta ou indiretamente, e os efeitos se sentirão por muito tempo.

O excesso de mortes por causas respiratórias nos 6 primeiros meses de COVID-19 é apenas uma demonstração do caos que vivemos em nosso país e no mundo. Para as autoridades de saúde, ficam as perguntas e tópicos sobre como trataremos de uma próxima pandemia.