Estudo sobre traseiro de frangos tornou-se chave para compreendermos a imunidade humana


Grandes descobertas da ciência sempre estão associadas a muito esforço, insistência, repetição e, claro, muito estudo. Mas, às vezes, elas também dependem de um pouco de sorte – e da lembrança de que nem tudo é o que parece. Pois foi a partir de um estudo sobre traseiro de frangos que foi possível desvendar o mistério sobre a imunidade em humanos.

Em dezembro de 1952, por exemplo, Bruce Glick despertou o interesse por uma estranha glândula encontrada na cloaca. A cloaca atua tanto como a ponta final do aparelho digestório, como também tem função para a reprodução.

Glick era um cientista que estudava aves. Ele fazia doutorado na Universidade do Estado de Ohio, nos EUA, e naquele mês tinha acabado de tirar um pequeno órgão – uma glândula – da cloaca de um ganso. Ele, então, perguntou ao seu orientador do que se tratava. E teve como resposta que aquilo era a bursa de Fabricius, ou bolsa de Fabricius.

O pesquisador, contudo, não tinha a resposta de para que ela servia. Assim, decidiu que iria se aprofundar no tema.

Origem do nome

A glândula recebeu esse nome em homenagem a Hieronymus Fabricius ab Aquapendente. Fabricius é considerado o pai da embriologia. Ele foi o primeiro a dissertar sobre o tema, no início dos anos 1600.

Fabricius era especialista em anatomia, área de estudos em que atuou e ensinou na cidade de Padova, na Itália, por mais de 50 anos.

A primeira descrição da bursa foi encontrada em um manuscrito de Fabricius. O texto, publicado em 1621, diz que “a terceira coisa que deve ser observada no podex é o saco duplo (bursa) que em sua porção inferior se projeta em direção ao osso púbico e aparece visível ao observador assim que o útero já mencionado se apresenta à vista”.

Assim, àquela época o pesquisador considerou que a glândula teria fins reprodutivos. Para ele, a pequena bolsa presente na cloaca seria na verdade um órgão de reprodução feminino.

A dedução, contudo, estava errada. E quem apontou isso foi William Harvey, o mais famoso dos discípulos de Fabricius. Harvey mostrou que a glândula aparecia em todas as aves, machos e fêmeas. Assim, não poderia ter a função que o mestre havia previsto.

Para que serve a bursa de Fabricius?

Como dissemos, cerca de 350 anos depois, Bruce Glick resolveu investigar a real função daquela glândula. A literatura sobre o tema disponível na época quase não existia. Ele, então, decidiu retirar a glândula de diversos pintinhos.

Os pintinhos, contudo, cresceram sem apresentar problema aparente. Sem conseguir as respostas que procurava, Glick resolveu devolver as galinhas à universidade – todas eles, sem a bursa.

Teria sido mais um dos inúmeros casos de pesquisa que não evoluiu. Mas, o tempo acabaria sendo generoso.

Tempos depois da fracassada tentativa de Glick, outro aluno da universidade, Timothy Chang, precisou de galinhas para mostrar como elas eram capazes de produzir contra as bactérias salmonella, desde que fossem vacinadas.

Alguns dos frangos utilizados na demonstração de Chang eram os mesmos que Glick havia extraído a bursa. Resultado: eles não criaram os anticorpos. Mais do que isso, sendo que muitos acabaram morrendo. As aves que tinham a bursa, por sua vez, desenvolveram anticorpos como era esperado.

Assim, Glick e Chang se uniram para, em 1956, concluir que a bursa de Fabricius desempenha um papel importante para produzir anticorpos. A pesquisa sobre a bursa aumentou muito nos anos 1960 e início dos anos 1970. E o artigo de Glick e Chang se tornou um dos mais importantes da história da imunologia.

Imunidade humana

Assim, foi a partir do estudo sobre traseiro de frangos que foi possível avançar sobre como funciona a imunidade em humanos.

Poucos anos após a descoberta de Glick e Chang, já se sabia que alguns tipos de glóbulos brancos, ou linfócitos, eram os responsáveis por desenvolver os anticorpos que combatiam os vírus. Faltava, contudo, responder a outra questão: como o corpo humano era capaz de reconhecer e atacar esses vírus? E, mais do que isso, como o corpo humano conseguia “lembrar” deles?

Foi então que um grupo de pesquisadores de outra universidade americana leu o estudo de Glick e Chang. A partir daí, a pesquisa chegou às mãos do médico Robert Good, que à época fazia experimentos com a remoção do timo de coelhos.

Good queria confirmar uma descoberta recente: a de que os linfócitos eram criados no timo.

O problema é que a pesquisa de Good – que consistia na remoção do timo de coelhos – não vinha dando os resultados esperados. A remoção desse órgão não trazia muitas mudanças à vida dos animais.

Ao cruzarem as informações com aquelas do estudo com as galinhas, porém, Good e sua equipe – em especial o médico pediatra Max D. Cooper – chegaram à conclusão de que não havia um erro, mas sim a falta de compreensão do todo. Eles perceberam que parte dos linfócitos eram produzidos no timo, e outra parte, na bursa.

Para comprovarem essa tese, a dupla removeu a bursa de alguns pintinhos, mas deixaram o timo. Ao mesmo tempo, removeram o timo de outros filhotes de aves, mas deixaram a bursa.

Ao final, eles perceberam que os pintinhos que não tiveram a bursa de Fabricius extraída não produziam anticorpos. Da mesma forma, as aves sem o timo produziam anticorpos, mas em quantidade menor do que era esperado.

A conclusão dos dois é que cada um desses pequenos órgãos era capaz de produzir linfócitos, mas, de tipos diferentes. Os dois juntos combatiam as infecções e ataques dos vírus.

Células B e T

Como se sabe, os seres humanos e outras espécies que não as aves não possuem a bursa de Fabricius. No entanto, diversas pesquisas a partir dos estudos de Glick mostraram que vários órgãos possuem ação parecida. Assim, eles são considerados como “equivalentes de bursa”.

Entre esses órgãos podemos citar a medula óssea, tanto em roedores quanto em primatas. Nesse caso, os humanos são incluídos.

Foi também a partir de todos esses estudos que foi desenvolvido o conceito de células B e T.

As células B são responsáveis por produzir os anticorpos. Elas ainda atacam e “guardam na memória” as informações sobre os vírus que invadem o corpo.

As células T, por sua vez, atuam diretamente para eliminar as células atingidas por invasores.

Hoje se sabe que a produção de linfócitos acontece na medula óssea. Contudo, enquanto as células T se desenvolvem no timo, as células B o fazem na bolsa de Fabricius ou mesmo na medula óssea – essa, no caso dos humanos.

Como se pode ver, foi a partir de um estudo sobre traseiro de frangos que foi possível compreender como funciona a imunidade em humanos.