Doenças infecciosas que “sumiram” com a pandemia


Estudos recentes mostraram uma redução significativa nos casos de doenças infecciosas em crianças, como gastroenterite, resfriados, otite e bronquiolite, por causa das medidas adotadas para o combate à pandemia de COVID-19.

Além disso, de acordo com alguns levantamentos, as crianças não têm grande potencial para disseminar o novo coronavírus. Contudo, todos precisam tomar cuidado para que o distanciamento social não afete a saúde mental das crianças. Confira mais detalhes a seguir.

O que aconteceu com as doenças infecciosas durante a pandemia?

De acordo com o estudo realizado pelo médico especialista em emergências pediátricas, François Angoulvant, e mais doze associados, o distanciamento social e as medidas de higiene adotadas durante a pandemia do novo coronavírus ajudaram a diminuir o caso de número de doenças infecciosas em crianças.

Os especialistas começaram a coletar os dados assim que o governo francês decretou o lockdown parcial em março de 2020. Assim, os resultados mostraram que o número de internações e consultas em prontos-socorros pediátricos diminuiu drasticamente nesse período. Em comparação com os anos de 2017, 2018 e 2019, houve uma queda de 68% no pronto atendimento infantil, e 45% nas internações.

Contudo, o estudo mostrou que as doenças não contagiosas não sofreram impacto durante o isolamento social. Na verdade, a queda foi observada especialmente nos casos de doenças bacterianas e virais, como resfriado, otite, bronquiolite e gastroenterite. No total, houve uma redução de mais de 70% em comparação com os anos anteriores.

Felizmente, o mesmo cenário está se repetindo no Brasil. Em entrevista a BBC News, o médico e coordenador do serviço de infectologia pediátrica do Hospital Sabará, Marco Aurélio Palazzi Sáfadi, relatou que a instituição teve uma redução de cerca de 80% nos casos de doenças infecciosas em crianças.

Além disso, de acordo com a reportagem publicada no jornal Agora São Paulo, a queda também atingiu as unidades pediátricas do SUS da capital paulista. Sem dúvida, uma boa notícia em tempo de pandemia!

Os novos hábitos de higiene e as doenças infecciosas

De fato, esses dados mostram que as medidas de distanciamento e higiene podem ter efeitos positivos mesmo após a pandemia de COVID-19. Por exemplo, usar máscara quanto tivermos sintomas de gripe, lavar as mãos com água e sabão com frequência e não colocar a mão no rosto quanto elas estiverem sujas podem ser de grande ajuda para evitar a disseminação de doenças infecciosas tanto em crianças como em adultos.

O estudo francês já mencionado trouxe a atenção também ao fato de que os principais disseminadores das infecções virais e bacterianas são os adultos. Afinal, os números de atendimento de crianças devido a doenças infecciosas variavam conforme as medidas de distanciamento.

Além disso, mesmo com a reabertura das escolas, os pesquisadores não observaram um aumento significativo nos casos de COVID-19 na França. Afinal, as evidências mostram que as crianças são menos afetadas.

Entretanto, quando as medidas de isolamento social e uso de máscaras foram relaxados, e os franceses retomaram as atividades normais, o país passou a enfrentar a segunda onda da pandemia.

Como a COVID-19 afeta as crianças?

De ato, ainda não se sabe exatamente qual o papel das crianças com menos de dez anos na cadeia de transmissão do novo coronavírus. Mas, aparentemente, elas não têm alta capacidade de transmissão.

Em um artigo publicado na edição de julho de 2020 da revista Pediatrics, da Academia Americana de Pediatria, os pesquisadores mostraram que o índice de transmissão do vírus de crianças para adultos é bem baixo. Por isso, concluiu-se que a reabertura das escolas não teria um grande impacto no aumento do número de casos de COVID-19.

Entretanto, isso não quer dizer que podemos ignorar o distanciamento social, a ventilação e as medidas de higiene. Um estudo realizado em agosto de 2020 pelo CDC (Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos da América) apontou que 76% dos monitores e crianças foram infectados pelo Sars-Cov-2 em um acampamento na Geórgia, EUA.

Porém, a CDC verificou que o acampamento não aumentou a sua ventilação e as crianças não utilizavam máscara nas dependências do acampamento. Dessa forma, os cantos e gritos de torcida colaboraram para a disseminação de aerossóis e gotículas contaminadas.

Como as escolas estão lidando com a COVID-19?

Na Europa, grande parte dos países optou por manter as escolas abertas mesmo durante a segunda onda da pandemia. De acordo com o Centro Europeu de Prevenção de Doenças, essa conduta não gerou uma transmissão em larga escala.

Por outro lado, em Nova York, o governo decidiu reabrir as escolas. Mas, quando o número de casos começou a aumentar, as autoridades fecharam novamente.

Semelhantemente, na Coreia do Sul, o governo optou por fechar as instituições de ensino entre agosto e setembro de 2020. Porém, isso só aconteceu depois que os hospitais confirmaram a infecção de quase duzentos alunos e funcionários.

No Brasil, o governo deve manter o calendário para reabertura das escolas. Porém, a rede pública precisará passar por muitas adequações, como boa ventilação natural, acesso à água potável e higienização dos prédios.

Além disso, de acordo com a simulação de dispersão do novo coronavírus em ambientes escolares na hipótese de reabertura das escolas no estado de São Paulo, realizado pela REPU (Rede Escola Pública e Universidade), seria preciso reduzir o número de estudantes nas salas de aula para muito além dos 35% permitidos pelo governo.

A saúde infantil vai muito além da prevenção de doenças infecciosas

Embora o combate à pandemia de COVID-19 seja um assunto muito importante, é preciso tomar cuidado para que o distanciamento social e as medidas de higiene não afetem a saúde mental das crianças.

Na verdade, mesmo que o cenário atual tenha colaborado para a diminuição dos casos de doenças infecciosas em crianças, é importante mantê-las em contato com a natureza o máximo possível. Porém, sempre deve-se respeitar as medidas de segurança.

Na verdade, grande parte das doenças infecciosas atinge as crianças de forma mais leve do que adultos. Por isso, muitos especialistas afirmam que a sujeira vinda da natureza é benéfica para o organismo. Assim, ao mesmo tempo que todos devem evitar aglomerações, os pais e responsáveis não precisam privar as crianças do contato com animais e com a natureza.