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Como a coinfecção HIV/tuberculose interfere na qualidade de vida do paciente?

São Paulo, 13 de julho de 2021
 

Como duas doenças altamente debilitantes, é indispensável analisar como a coinfecção HIV/tuberculose interfere na qualidade de vida do paciente. Este conceito, que aborda não apenas aspectos físicos, mas também psicológicos e sociais, é chave para atendimentos mais humanos e tratamentos mais efetivos.

Tanto a tuberculose, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, quanto a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), causada pelo vírus HIV, são doenças muito prevalentes na população humana. Elas podem levar a quadros graves, afetam órgãos importantes e outros aspectos da vida diária.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019 estima-se que cerca de 10 milhões de pessoas contraíram tuberculose. O número de mortes estimado para o mesmo ano foi cerca de 1,4 milhão ao redor do mundo.

Já para o HIV, as estimativas globais são de cerca de 1,5 milhão de novas infecções em 2020. Estes se somam aos 37,6 milhões de pessoas vivendo com o HIV atualmente. A estimativa de mortes em 2020, decorrentes de doenças relacionadas à AIDS, foi de 690 mil.

Casos de coinfecção HIV/tuberculose

Devido às características debilitantes da AIDS, a coinfecção com a tuberculose é de se ter atenção. Afinal, a tuberculose por si só é uma doença que afeta profundamente a qualidade de vida e saúde de pacientes.

Dessa forma, a OMS recomenda a testagem de pacientes com tuberculose para o vírus HIV. Apesar disso, mundialmente apenas cerca de 69% deles são submetidos à avaliação. Destes, 9,5% apresentam soropositividade.

Por outro lado, no Brasil os números divergem um pouco. Aqui encontra-se uma taxa de coinfecção de 8,4% em 76,1% dos pacientes diagnosticados com tuberculose no ano de 2019. Essa diferença pode ser devido ao tratamento com os pacientes infectados por HIV, impedindo o desenvolvimento de tuberculose, e nossas políticas de saúde pública.

Qualidade de vida de pacientes coinfectados com HIV/tuberculose

Não é de hoje que a preocupação com a qualidade de vida dos pacientes de HIV e tuberculose gera preocupações. A pesquisa acerca do assunto já é extensa e envolve esforços de saúde pública em diversos países.

No entanto, quando o assunto é a coinfecção entre as duas doenças, a quantidade de dados e pesquisas cai drasticamente. Além disso, não há uma padronização ou método universal aceito para análise qualitativa ou quantitativa da qualidade de vida nestes pacientes.

Ainda assim, estudos existem e compilam boas informações sobre aspectos relacionados ao tema. É o que nos trazem Marcos Vinicius e colaboradores neste artigo de revisão bibliográfica. Eles reuniram 15 artigos, publicados em diversos países, para lançar uma melhor visão a respeito dos pacientes coinfectados, qualidade de vida observada e sua auto percepção.

Os estudos mostram como a presença das duas doenças afeta a vida das pessoas mais gravemente do que apenas uma delas. Além disso, apontam para uma grande presença de abordagens quantitativas. Logo, há a necessidade do estabelecimento de metodologias mais universais e difundidas para coleta e publicação de dados qualitativos.

Todos os estudos utilizaram a definição da OMS para qualidade de vida. Ela dá uma abordagem ampla para o conceito, que envolve não apenas a saúde física e mental do indivíduo, mas também aspectos sociais, econômicos, auto percepção e o meio onde vive.

Parâmetros utilizados para mensurar qualidade de vida

Os instrumentos utilizados para avaliação da qualidade de vida dos pacientes nos artigos foram diversos.

Entre eles estão o Instrumento de Qualidade de Vida da OMS para pessoas com HIV versão extendida e resumida; a escala de estresse psicológico de Kessler-10; a Escala de Inventário de Depressão de Beck; e também o HRQoL, EuroQoL, AUDIT, Social Functioning, HAT-QoL, MOS-HIV, EVA e a Escala de Apoio Social Para Pessoas Vivendo com HIV/AIDS.

População afetada

Dos 15 artigos reunidos na revisão, cinco vieram do Brasil e os demais também de países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, como a África do Sul, Etiópia, Índia, Nepal, Nigéria e Tailândia.

Essa amostra não é separada da realidade. Isso porque ambas as doenças possuem como forte característica a prevalência em populações marginalizadas. Seja por condições de vida que favorecem a contaminação e desenvolvimento, ou pela falta de acesso a tratamentos eficazes, há uma forte sobreposição de indivíduos vulneráveis para ambas.

Quando tratamos da qualidade de vida, isto tem grande influência. Isso porque indivíduos em fragilidade social são expostos a muitos agravantes de qualidade de vida, desenvolvimento e saúde. Contato com outras doenças é apontado como um fator determinante na efetividade de tratamentos e qualidade de vida.

Aspectos socioeconômicos como baixa renda e falta de planejamento familiar influenciam no acesso à saúde, por exemplo. Eles geram, direta e indiretamente, problemas de saúde que, ainda mais em associação a quadros de HIV/tuberculose, causam grande dor, física e mental, nestes indivíduos.

Não apenas isso, mas tais aspectos sociais são fatores de peso no desenvolvimento de distúrbios psicossociais, como quadros de ansiedade e depressão. Quando combinados ao diagnóstico de doenças graves, o quadro psicológico destas pessoas sofre um agravamento enorme.

Por fim, outros fatores populacionais e geográficos que influenciam diretamente na qualidade de vida do indivíduo a exposição são a pobreza extrema, violência (doméstica e provocada pelo estado) e falta de perspectiva.

Todos estes fatores não apenas agravam a qualidade de vida dos pacientes, mas também são grandes empecilhos nas intervenções para a aprimorarem.

Importância do tratamento

O tratamento nos casos de HIV e tuberculose têm importância gigantesca. Eles permitem o abrandamento de sintomas e cura para a tuberculose, e o uso de terapia retroviral é um avanço enorme no combate ao HIV. A medicina moderna permite vidas longas e saudáveis para os infectados por ambas. O grande desafio se encontra na adesão aos tratamentos.

Os vários estudos apontam para a necessidade de trabalhadores médicos e sociais para conseguir isso. O desenvolvimento de medicamentos mais eficientes, que exigem menos tempo de tratamento ou tenham menos efeitos colaterais, por exemplo, são chave para tal.

Além disso, acessar o psicológico e social dos indivíduos é essencial. Fica evidente como a sensação de falta de esperança e apoio familiar e da comunidade levam à desistência do tratamento.

Considerações finais

Por mais que ainda exista uma lacuna enorme na produção científica a respeito da qualidade de vida em pacientes com coinfecção de HIV/tuberculose, pouco a pouco será possível tomar as medidas mais efetivas com base na ciência. Os trabalhos mostram como a informação salva vidas, e conhecer o mundo do paciente é parte disso.

Assim sendo, ao tratarmos sobre qualidade de vida, os aspectos clínicos atuam em conjunto com os sociais e pessoais. É a partir disso que é possível atender melhor esses indivíduos e entregar cada vez mais saúde para eles.