Artigo

Pacientes com carcinoma hepatocelular e seu manejo durante a COVID-19

São Paulo, 22 de março de 2021
 

Em um ambiente pandêmico e de constantes mudanças, algumas dúvidas surgem quanto ao tratamento de pacientes com diferentes doenças, como o carcinoma hepatocelular, em meio à crise da COVID-19.

Desse modo, antes de tudo, cabe entender sobre o que se trata o carcinoma hepatocelular, sua incidência e quais são seus sintomas. Assim, será possível ter um melhor direcionamento quanto ao tratamento de pessoas diagnosticadas com carcinoma hepatocelular durante a COVID-19.

O que é o carcinoma hepatocelular?

O carcinoma hepatocelular é uma espécie de câncer, de modo mais simples e direto de explicar, e que tem o seu início em células hepáticas.

As células hepáticas, como se sabe, são aquelas que podem ser encontradas no fígado. Além disso, estes tipos de células desempenham a função tanto de absorver proteínas quanto também mantê-las.

As células hepáticas são as mais versáteis presentes no organismo humano.

De modo geral, ele acomete pacientes que têm uma grave cicatrização do órgão hepático, isto é, do fígado, condição mais conhecida como cirrose.

Por ser o câncer hepático mais comum, um artigo ainda do início do ano 2000 demonstra que a sua incidência variava entre 500.000 a 1 milhão de novos casos em um ano, durante aquele período.

Já em 2020 no 1º Simpósio Internacional de Hepatocarcinoma, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, ficou demonstrado que 60% dos casos de carcinoma hepatocelular têm seu diagnóstico em fase terminal.

Além disso, pessoas com o vírus da hepatite B têm cem vezes mais a chance de obter o carcinoma hepatocelular.

Sintomas do carcinoma hepatocelular

Quem possui carcinoma hepatocelular tem alguns sintomas que podem ser entendidos como indicadores da doença.

Alguns dos sintomas são:

  • Dores abdominais;
  • Perda de peso;
  • Massa abdominal;
  • Icterícia.

No entanto, as pessoas que já têm cirrose possuem mais chances de ter o carcinoma hepatocelular com sintomas mais graves.

Vale mencionar que é possível contrair a doença do carcinoma hepatocelular através da evolução direta da hepatite B, sem a necessidade de contrair primeiramente a cirrose.

Pessoas com cirrose que tiveram o quadro evoluído para o carcinoma hepatocelular podem ficar muito doentes de modo súbito. Nesse caso, os sintomas podem incluir febre e possível hemorragia do tumor.

Diagnóstico do carcinoma hepatocelular

Os exames que são possíveis de serem realizados são os exames físicos, exames de sangue e também de imagem.

No entanto, o exame físico não é tão certeiro, uma vez que ele é realizado quando se observa uma massa em hipocôndrio direito. Desse modo, sintomas assim também se refletem em pacientes que têm, há muito tempo, cirrose.

A mesma situação pode acontecer ao realizar o exame de imagem por meio da ultrassonografia.

Além da ultrassonografia, outros exames de imagens possíveis de serem feitos são a RM, bem como um contraste poderá ser injetado na veia do paciente a fim de uma melhor e mais fácil identificação de anomalia.

Contudo, através do exame de sangue, é possível fazer a averiguação dos níveis de AFP (Alfa-fetoproteína). Caso estejam elevados, então, causando uma desregulação de hepatócitos, há grande possibilidade de sua causa ser o carcinoma hepatocelular.

Por fim, se houver alto índice de AFP e as imagens capturarem traços com características, o diagnóstico será muito certo.

Porém, é possível fazer uma biópsia guiada por meio de ultrassonografia no fígado a fim de obter maior precisão.

Tratamento do carcinoma hepatocelular durante a COVID-19

Por causa da pandemia ainda vigente da COVID-19, alguns protocolos sobre o tratamento de doenças, nesse caso, no tratamento do carcinoma hepatocelular, mudaram.

Isto se deu por causa da evidente falta de leitos de UTI com a finalidade de ter cuidados após possíveis operações, redução de anestesias e até as próprias salas de cirurgias, dentre outros fatores.

Dessa maneira, vamos apresentar a mudança de protocolo de alguns tratamentos a seguir.

Ressecção cirúrgica

Com o intuito de evitar o excesso de morbimortalidade, há agora a seleção bastante metódica quantos aos pacientes com risco atenuado de descompensação e sem comorbidade.

Por sua vez, aqueles pacientes com a sua função hepática mais segura, sem hipertensão portal clinicamente significativa, sem idade avançada e sem comorbidade, deve-se considerar a cirurgia de tratamento de caráter definitivo, preferencialmente via videolaparoscopia.

Já nos pacientes que possuem tumores de localização complicada e/ou idade avançada, outros tratamentos devem ser considerados, tais como TACE, TAE ou terapias sistêmicas.

Transplante hepático

A execução deste tipo de tratamento ficou muito limitada, uma vez que a capacidade anestésica está em falta, como também no mesmo estado se encontra a UTI.

Além disso, os leitos para a internação para cuidados após uma hipotética cirurgia oferecem risco de contaminação de COVID-19.

Igualmente, há o risco de escassez de órgãos e consequente aumento na lista de espera, bem como uma possível eliminação por progressão do tumor.

Logo, então, é necessária a suspensão dos procedimentos de transplante hepático a fim de proteger tanto o doador quanto o receptor do órgão.

Terapias Ablativas Percutâneas – RFA e PEI

Levando em consideração todos os fatores e consequências que já comentamos, se prioriza a realização de Terapias Ablativas Percutâneas nos pacientes com risco atenuado (localização favorável do tumor) e com grande chance de resposta (com tumores únicos e menores de 3 centímetros).

Ademais, é considerado o tratamento com PEI (Injeção Percutânea de Etanol) a nível ambulatorial em pessoas com tumores únicos menos que 2 centímetros, que sejam de idade avançada ou pacientes com comorbidades que cresçam o risco de severa infeção pela COVID-19.

Como boas alternativas a essas modalidades terapêuticas, destacam-se a TACE, a TAE, as terapias sistêmicas e os monitoramentos via imagem. Seja como for, tais alternativas devem ser definidas de acordo com o caso do paciente e os recursos do local.

Considerações finais

Embora a COVID-19 tenha demonstrado bastante persistência e modificações de protocolo quanto ao seu tratamento e, indiretamente, do tratamento da doença do carcinoma hepatocelular, ela tem ajudado a medicina se desenvolver. Uma vez que as mudanças e, por consequência, a criação de meios diversos para cuidar dos pacientes ajudam e impulsionam o olhar clínico dos profissionais da saúdo quanto à resolução dos problemas de seus pacientes, é sempre importante se manter bem informado sobre novas diretrizes e protocolos em tempos de COVID.