Artigo

Carcinoma hepatocelular e as novas terapias endovasculares

São Paulo, 16 de junho de 2021
 

O carcinoma hepatocelular é a forma mais comum de ocorrência de câncer no fígado, tendo seu início nas células hepáticas. É também a sexta maior causa de câncer na população mundial, bem como o terceiro câncer mais mortal.

Suas causas são diversas, desde propensão genética a usual ligação com consumo alcoólico. Frequentemente surge como o agravo de um já presente quadro de cirrose, mas aumenta em chances quando do paciente já ser portador de hepatite do tipo B. Nesse caso, costuma ocorrer de forma aguda, grave, com sintomas mais danosos que os normalmente relacionados à hepatite.

Pela razão da doença ocorrer com frequência em seu estado mais avançado, causando muito sofrimento, suscita a necessidade da procura por novas terapias, medicamentos e avanços médicos.

Rastreamento e monitoramento

A população-alvo para monitoramento são pacientes com cirrose e hepatite B crônica.

O rastreamento é a maneira mais comum de monitorar o aparecimento da doença, com ultrassonografias periódicas. A tomografia ainda não tem eficácia comprovada. De acordo com a presença de nódulos, tumores e lesões, a partir de um monitoramento com intervalos menores, detecta-se o tamanho e índice de crescimento da doença.

Com a suspeita concluída, solicita-se uma nova bateria de testes para definição do diagnóstico. Então, certas abordagens estão devidamente definidas para diferenciar os casos, dando início ao tratamento.

Para programação de tratamento, é levado bastante em conta o estagiamento do Grupo de Barcelona (Barcelona Clinic Liver Cancer).

Tratamento

Nos estágios iniciais, é recomendada a ressecção ou transplante de fígado. Nos estados intermediários, a alcoolização/injeção percutânea ou uso da radiofrequência para redução do tumor. Nos estágios avançados, faz-se a quimioembolização arterial com ingestão oral de Sorafenibe. Já para os casos muito avançados, só há possibilidades de tratamento paliativo.

Para o transplante, segue-se o critério de Milão, para tumores únicos de até 5cm ou até 3 tumores, nenhum maior de 5cm.

Para a terapia ablativa, injeta-se etanol ou ácido acético, sendo esta modalidade chamada ablação química.

Na ablação mediada por energia, se usa radiofrequência, microondas ou crioablação. A ablação funciona como “ponte” para um transplante, buscando reduzir o tumor.

O alcance de sobrevida para o tratamento é de:

  • 74 – 96% após um ano, e 25% a 72% após 5 anos para quem fez ressecção;
  • 84 – 90% para transplantados após 1 ano e 69 – 75% após 5 anos;
  • 87 – 98% após 1 ano e 29% a 54% após 5 anos no caso de ablação.

Por conta da pandemia do coronavírus, alguns protocolos de procedimentos tiveram de ser alterados, modificando algumas rotinas, em que se sublinhe ressecções e transplantes.

Terapias endovasculares para carcinoma hepatocelular

Para alguns estados de cirrose hepática com múltiplos nódulos (estágio B) onde a veia porta sofre trombose – porém ainda verificando-se funcionamento do fígado –, a classificação BCLC considera o estado localmente avançado, classificando-o num ponto que engloba o estágio BLC-B e BLC-C.

Por enquadrar uma situação já não curável por ablação, se considera o tratamento intra-arterial como alternativa viável.

A embolização é a prática de injetar elementos ou substâncias que bloqueiem ou diminuam o fluxo de sangue que chega até as células cancerígenas no fígado.

A princípio, por reduzir parcialmente o suprimento de sangue ao tecido hepático normal, não se recomendaria para certos casos de hepatite ou cirrose. Mas, com o diagnóstico e seleção do tratamento adequado, torna-se uma alternativa.

É ainda possível combinar Terapias Endovasculares com procedimentos de ablação, e Terapias como a Quimioembolização e a Radioembolização Trans Arterial, muito observada e tida como promissora.

Embolização

Com resultados expressivos atualmente, das Terapias Endovasculares, a Embolização Transarterial está mostrando resultados positivos.

Neste procedimento, insere-se o cateter artéria por uma pequena incisão na parte interna da coxa (região inguinal) até a artéria hepática. Geralmente, se injeta um corante pela corrente sanguínea para monitoramento do cateter.

Como supracitado, quando o aparelho chega ao local determinado, injetam-se pequenas esferas na artéria para sua obstrução, ocorrendo o bloqueio do oxigênio e evitando que nutrientes cheguem ao tumor.

Quimioembolização

Quimioembolização transarterial (TACE) é recomendada para o fígado doente que não pode ser tratado cirurgicamente ou ablativamente. É uma combinação de quimioterapia com embolização. A quimioterapia se faz através do cateter, diretamente na artéria. Assim se possibilita permanecer próxima ao tumor.

A Quimioembolização de esferas farmacológicas (DEB-TACE) vem da combinação da embolização TACE com esferas farmacológicas. Semelhante à TACE em procedimento, contudo, a artéria é bloqueada após serem injetadas as esferas farmacológicas. Por ser injetada próxima ao tumor e as esferas lentamente liberarem a quimioterapia, provavelmente as células cancerígenas vão morrer.

Os quimioterápicos mais usados para a TACE ou na DEB-TACE são: cisplatina, doxorrubicina e mitomicina C.

Radioembolização

Combina embolização e radioterapia. Consiste em injetar microesferas radioativas na artéria hepática.

Microesferas de ítrio 90 (Y-90) se alojam nos vasos sanguíneos perto do tumor. Em seguida, emitem radiação para a lesão. A radioembolização se indica ao tratar tumores que não podem ser removidos pela cirurgia, tumores que podem ser originários do fígado (primário) ou até de outras partes do corpo (metástases).

O tratamento visa diminuir o tumor para a incursão cirúrgica. A radioembolização possibilita que a radiação, que é normalmente usada para trato do câncer, chegue diretamente aos tumores pela irrigação vascular que os alimenta. Assim, a exposição de tecido saudável do fígado às microesferas é reduzida. A alta pode ser dada no mesmo dia.

Dados clínicos revelam que a radioembolização aumenta a expectativa e qualidade de vida do paciente.

Possíveis efeitos colaterais

Após a embolização, podem ocorrer efeitos que incluem náuseas, febre, dor abdominal, infecção hepática e a formação de coágulos do sangue, geralmente nos principais vasos hepáticos.

Certamente o carcinoma hepatocelular está longe de chegar à cura, como tantos tipos de câncer que infelizmente mataram, no total, mais de 10 milhões de pessoas em 2020. Todavia, a mortalidade por câncer no mundo teve queda de 2,2% entre 2016 e 2017, a maior já documentada pela American Cancer Society (ACS). Os pesquisadores dão graças à melhoria dos tratamentos, como os de câncer de pulmão e melanoma.

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